quinta-feira, 10 de março de 2011

O movimento das cinco estações



Cada dia com sua glória, cada dia com sua dor... bem que esse adágio pode ser chinês e expressar a dinâmica dos cinco movimentos ou elementos: madeira (木), fogo (火), metal (金), ar (上) e água (水) ao longo do dia ou durante as estações do ano.

Na medicina tradicional chinesa, com se lê no “Livro dos Quatro Institutos”, compilado pelo Ministério da Saúde chinês reunindo as principais escolas de acupuntura do país, a teoria dos cinco elementos explica a relação de estímulo recíproco, interação, exagero e neutralização entre eles, a madeira (木),  o fogo (火), o metal (金), o ar (上) e a água (水)  e os meridianos ou canais de energia  (经络 - Jīng Luò). Sua aplicação, segundo essa ciência tradicional, consiste em classificar nestas cinco categorias distintas todos os fenômenos naturais, além dos tecidos, órgãos do corpo humano, respectivos meridianos e as emoções humana. Interpreta-se também a relação entre a fisiologia e a patologia do corpo humano e o ambiente natural com as leis do estímulo recíproco, da interação, do exagero e da neutralização deduzidas da relação entre os citados cinco elementos.

Contudo para um ocidental entender como esta metáfora ou "teoria analógica" é utilizada como guia na prática médica, nada como a antropologia estrutural, a ciência que nos possibilita o devido distanciamento do outro e de si mesmo para permitir o seu entendimento. Somente o entendimento da relação entre o símbolo e a coisa referida, enquanto instrumentos conceituais, nos permite o constante deslocamento de planos de comparação e explicação para entrever o sentido seu lógico. Esse é o método mito-poético proposto por Levi-Strauss que decifra a analogia presente dos mitos. A projeção do eixo paradigmático sobre o sintagmático como num poema que lida com a sonoridade das palavras, sua natureza, grafia e significado, foi como ele descreveu.

Na proposição do citado antropólogo todo mito coloca um problema e o trata mostrando que é análogo a outro problema ou símbolo, tipo fogo, água, vento, etc.. Sua característica é esse jogo de espelhos e reflexos que se remetem mutuamente, sem nunca corresponder um objeto real (exatamente), para ser mais preciso, o objeto tira sua substância das propriedades invariantes que o pensamento mítico consegue extrair, quando coloca em paralelo uma pluralidade de enunciados" (Levi Strauss, 1976). Em nosso caso dos 5 elementos lidamos com uma série de comparações, às vezes apresentadas como matrizes circulares articulando emoções à estações do ano e fatores ambientais. Outras séries de categorias podem ser incluídas tais como sabores, cores e principalmente, pois trata-se de uma tecnologia médica, patologias e a dinâmica da energia nos meridianos ou nos conjuntos de pontos selecionados por essa "regra" de sua mútua inter-relação e efeitos específicos. Nesse proposição consideramos essencial analisar as relações entre:

Emoções: Raiva (agressividade / 怒 nù) ; Alegria (喜 xǐ ); Preocupação (ficar pensativo 想 - si / xiǎng); Tristeza (melancolia / mágoa 悲 bēi); Medo (恐 kǒng) / Apreensão/ ansiedade (忧 yōu).

Estações: Primavera (春 chūn); Verão (夏 xià); Final do verão (Canícula, calor do cão / 天狼星); Outono (秋 qiū) ; Inverno (冬 dōng ).

Fatores ambientais: Vento (风 fēng); Calor (热 rè); Secura (燥 zào); Frio (冷 lěng); Umidade (潮 cháo).

Naturalmente conhecimento acumulado na tradição empírica de milhares de anos modelou os conjuntos de pontos selecionados e sua correlação com alimentos sabores, emoções nas distintas patologias e estações do ano. Algumas correlações das doenças e estações do ano são bem conhecidas por nós ocidentais a exemplo das gripes e meningites no inverno, as depressões cíclicas (sazonais), diarréias e patologias transmitidas por mosquitos no verão, alergias e o pólen das flores primavera, outras são próprias da medicina tradicional chinesa e ainda estão sendo apreendidas.

A grande fonte desse conhecimento na tradição chinesa, como reconhecido por todos, é o Nei Ching, Livro do Imperador Amarelo, acrescentei a estes alguns poetas orientais, porque nada como a poesia para expressar as emoções.

Lê-se no Nei Ching:
“O céu se situa acima, é o acúmulo do Yang luzidio acima; a terra situa-se abaixo é o acúmulo do Yin turvo abaixo. O Yin associa-se à calma, e o Yang se associa ao movimento impetuoso. O yang se associa ao nascimento (como na primavera) e o Yin se associa ao crescimento (como no verão); o Yang se associa ao desenvolvimento (como no outono) e o Yin se associa ao ocultar (como no inverno). O yang tem a função de ativar a energia vital e o Yin tem a função de dar forma corporal a todas as coisas”...

“Na natureza há o lapso das quatro estações e as alterações dos cinco elementos produzem as cinco energias, isto é, frio, calor, secura, umidade e vento, e assim por diante a fim de promover o nascimento, o crescimento, a colheita e o armazenamento de todas as coisas. Já que a natureza e homem se combinam numa só, há como correspondência cinco vísceras para o homem. As cinco vísceras do homem produzem as cinco energias que surgem respectivamente como excesso de alegria, raiva, melancolia, ansiedade e terror.

“A excitação dos humores como alegria excessiva raiva, etc., pode danificar as vísceras, então, fere a energia vital do homem. A súbita alteração de diversos climas, tais como frio, calor, etc. Pode invadir os músculos e a pele ferindo conseqüentemente o físico do homem.

“A raiva violenta faz com que a energia vital flua em contracorrente e force o sangue correr para cima causando estagnação na parte superior e com resultante deixando o Yin ferido. O excesso violento de alegria faz com que a energia vital se infiltre em sentido descendente e como resultado o Yang será ferido.

“Quando o corpo for afetado pelo calor perverso do verão, no verão e a doença não ocorrer imediatamente o calor de verão ficará retido no interior, e quando o corpo for invadido pelo vento perverso no outono, a contenção de frio e calor, um contra o outro, irá causar malária (doença febril) no outono. Quando o corpo ficar afetado pela umidade perversa no outono, está irá subir em contracorrente para atacar o pulmão e irá ocorrer tosse no inverno quando o frio começar a se evadir.”

Muitas vezes o próprio nome da patologia já expressa a correlação entre um elemento interno (emoção) e externo como nas doenças reumáticas conhecidas como doenças do frio-vento, tristeza e umidade ou na sua denominação se acentua o elemento exógeno tipo: a invasão de vento (golpe de vento) causando o acidente vascular cerebral; a “invasão do calor no verão” provocando a insolação; “labaredas de fogo no coração devido a insuficiência da água (rins)” causando a insônia ou distúrbios da ejaculação (se causados por desregramento sexual); a “invasão do pulmão causada por vento-calor exógeno causando paralisias entre outras. O próprio Nei Ching relaciona os principais danos associados à emoção como veremos a seguir nesse exemplo da relação entre a madeira e o elemento ar e seu correspondente metal descrito pelo “Imperador Amarelo”:
“... a emoção do fígado é a raiva, a raiva excessiva pode lesar o fígado, mas a tristeza pode sobrepujar a raiva (a tristeza é a emoção dos pulmões, e o metal (ar) pode dominar a madeira). O vento em excesso irá lesar os tendões, mas secura pode prejudicar o vento (a secura corresponde ao metal (ar) e o metal pode dominar a madeira); o excesso de ingestão de alimento ácido poderá lesar os tendões, mas o picante pode dominar a acidez (o picante pode dominar o metal e o metal pode dominar a madeira).”

E como já referido nada como a bricolagem poética para decifrar e explicar as emoções humanas que não seguem exatamente os típicos comportamentos animais relacionados à sazonalidade. Lutas por hierarquia e disputa de fêmeas entre machos e nascimento e cuidados com as crias entre fêmeas na primavera; cópula e crescimento / socialização de filhotes no verão; engorda e apreensão no outono; migração, hibernação ou morte no inverno. Assim sendo lhes deixo com alguns poetas orientais e seus escritos sobre as estações do ano.

Estações do ano
Matsuó Bashô (1 e 2), Rihaku (Li Po / Li Bai - 3, 4 e 8) e outros poetas

Primavera
No Japão vai de março a maio
cereja em flor
vermelha, vermelha, vermelha
vermelha flor
1
chuva de primavera
a água escorre do teto
pelo ninho de vespas
1
rio ôi
sopre pra longe
nuvens das chuvas de maio
1
adeus primavera
chora o pássaro num canto
lágrimas nos olhos de peixe
2
o rio Mogami
junta as chuvas de maio
ao mar
2
pertinaz esplendor
eleva-se ante a chuva
o templo de luz
2
Kisagata
a beleza dorme na chuva
mimosas úmidas
2


Verão
No Japão vai de junho a agosto
o dia em chamas
joga no mar
o rio mogâmi
1
relva de verão
guarda dos guerreiros
o sonho
2
As borboletas, aos pares,
ficam já amarelas com o Agosto
Sobre a erva no jardim de oeste;
E magoam-me. Envelheço.
Se desceres pelos estreitos do rio Kiang,
Por favor manda-mo dizer com tempo,
Para que eu possa ir ao seu encontro
em Cho-fu-Sa
3

No Japão os tufões são comuns entre o fim do verão e o início do outono.

o mar escurece
a voz das gaivotas
quase branca
1
relampagueia
através das trevas
a garça ecoa
1

Outono
No Japão vai de setembro a novembro
conversa noturna
o vento de outono
e a montanha
2
melancolia
mais lancinante que Suma
praia de outono
2
movam-se túmulos
ouvi meu pranto
vento de outono
2
arde o sol
mas o vento
é outono
2
mas branco que as pedras
da montanha de pedra
o vento de outono
2
vento amotina ondas
pinheiros gotejam
úmida luz da lua
2

Os degraus no orvalho são diamantes branco - brilhantes
Esse orvalho ensopando meus sapatos de pano
caindo feito uma cortina de cristal
faz a lua clara do outono
4

Inverno
No Japão vai de dezembro a fevereiro
aguaceiro de inverno
incapaz de esconder a lua
deixa-a escapar de seu pulso
5
caminho de gelo
piso relâmpagos
luz de minha lanterna
6
a geada queimou tudo
até o cachorro
vaga a esmo
7
montanha de inverno
o menino adotivo do bar
é filho do sol nascente
7

Balada das quatro estações: Inverno
O mensageiro partirá no dia seguinte, disse ela.
Que costurou por toda noite as fardas de guerra
Com seus dedos sentindo o frio da agulha.
Mas como ela pode segurar firme uma tesoura?
Seu trabalho foi feito, e vai ser entregue bem longe dela
E quando ele chegar à cidade onde os guerreiros estão?
8

Acredita-se ser fundamental, como referido a tentativa de apreensão do sistema em si (uma abordagem êmica) contrapondo-se à uma descrição étnica (do sistema em relação a outros) e grandiosa é a contribuição da poesia para traduzir, nesse caso os sentimentos e emoções relativos ao clima e estações do ano. Observe-se contudo que as comparações com outros sistemas são importantes, sobretudo na antropologia médica, que pretende revelar as normas culturais ou regras ocultas em termos sociais. Segundo Laplantine esta inter-disciplina ..."não pode dispor-se a abandonar a reflexão sobre a doença aos cuidados das pretensões da filosofia, das ideologias, das religiões, nem sequer do discurso oficial da (bio)medicina." (Laplantine,1991, p.34).

Uma outra possibilidade de interpretação que se elaborou além dessa tentativa de apreender as concepções de emoção, estações do ano e fatores patogênicos/ patologias na percepção oriental (chinesa) acima esboçada, foi a comparação desta concepção chinesa de emoções e patologias com as nossas, ocidentais e antigas concepções, expressas na conceito de energia vital, plenamente utilizado na (bio)medicina ocidental ou medicina cosmopolita até finais do séc. XIX, como podem ser lidos nos aforismos médicos (medievais - renascentistas) e nos antigos provérbios de origem grego-judaica. ver: "Energia vital, vida e saúde em aforismos e antigos provérbios médicos da tradição oriental e ocidental".

Primeira parte: A tradição judaico-semítica: Aforismos antigos, provérbios e conselhos para manutenção da saúde na tradição e medicina semítica.

Bibliografia

CHINA, Gov. Ministério da Saúde / Quatro Institutos – Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjng; Academia de Medicina Tradicional Chinesa. Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa. SP, Ed. Ícone, 1995

LAPLANTINE, François. Antropologia da doença. SP, Martins Fontes, 1991

LEMINSKI, Paulo. Matsuó Bashô. São Paulo, Brasiliense, 1983.

LEVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem São Paulo, Companhia Ed Nacional, 1976

NEI CHING, (Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo). Compilação de Bing Wang (dinastia Tang). SP, Ícone, 2001

VERÇOSA, Carlos. Oku: viajando com Bashô. Salvador, Secretaria de Cultura e Turismo do Governo da Bahia, 1996.

Notas bibliográficas

1 trad. P. Leminsky
2 trad. C. Verçosa
3 Rihaku/ Ezra Pound, Cathay , trad. G. Cunha Lisboa, Relógio d’água, 1995
4 Rihaku / Ezra Pound, Cathay / Costa PPPR
5 Tokoku/ trad. C Verçosa
6 Jugo/ trad. C Verçosa
7 Nenpuku Sato. Trilha forrada de folhas. SP, Acidente, 1999
8 Folk-song-styled-verse / Li Bai
Tang Shi San Bai Shou / 300 Tang Poems - Heng-t'ang-t'ui-Shih, 618-907 Electronic version

9 comentários:

Paulo Pedro disse...

Pensamentos no outono

Desvaneceu-se o calor da primavera.
Havia a profusão do verde
e duas aves amarelas chirleando, ao desafio.
De súbito, murcham as ervas,
um vento cortante anuncia o Outono,
caem folhas, a lua fria envolve
de melancolia o pipilar da codorniz.
A natureza parou de crescer.
Sento-me, triste,
vencido pela geada branca.

Poemas de Li Bai
António Graça Abreu (org./trad.)
Macau, 1996

Paulo Pedro disse...

Início da Primavera

Não sei ainda se começou a Primavera,
mas vou buscar a fragrância das ameixoeiras.
Ontem à noite, o vento varreu Wuchang.
eram ouro os salgueiros na borda dos caminhos.
Estendem-se as nuvens, ondas esmeralda correm até ao infinito.
Meu amor não chega, aguardo em vão, triste.
Limpo cuidadosamente uma pedra na montanha verde
e espero o dia de fruir todos os prazeres.


Na montanha num dia de Verão

Abano-me preguiçosamente com um leque de penas brancas,
deito-me seminu na floresta verde,
penduro meu boné numa rocha escarpada
e deixo a brisa dos pinhais acariciar minha cabeça.

Poemas de Li Bai
António Graça Abreu (org./trad.)
Macau, 1996

Paulo Pedro disse...

cai a tarde
flor no pessegueiro
cai o inverno

o amarelo sai do céu
e corre ao vento
outono dentro


Alice Ruiz
DESORIENTAIS
hai-kais
Iluminuras, 2001

Paulo Pedro disse...

degraus da escada de jade

agora brancos de orvalho

orvalho da noite alta

invade as meias de gaze -

a dama que fez baixar

as persianas de cristal

contempla na transparência

a lua clara de outono


Li Po
Haroldo de Campos
Escrito sobre jade, poesia clássica chinesa. SP, Ateliê Editorial, 2009

Paulo Pedro disse...

Pensamentos da primavera

As ervas são como fios azuis-esverdeados.

A amoreira deixa pender seus ramos verdes.

É o tempo em que se pensa no dia do regresso,

o momento em que a minha dor se torna insuportável.

Vento da primavera, não te conheço!

Por que entras pelas minhas cortinas de gaze?


Li T'ai Po (701-762)
Poemas chineses/ Li Po, Tu Fu; tradução Cecília Meireles.
RJ, Nova Fronteira, 1996

Paulo Pedro disse...

Du Fu

Primavera

Os perfumes da primavera e os raios oblíquos do sol
atravessam as minhas janelas? È a hora em que os barqueiros
começam a cozinhar o arroz para a refeição da
noite. Os pardais piam. Rincha um carro.

Bebo - e os meus cuidados misturam-se aos insetos
alados que zumbem na irisação vermelha do jardim.



Lamento pela minha cabana
destruída pelo vento do outono



No oitavo mês, em pleno outono, o vento ruge, colérico,

e leva num turbilhão as três camadas de palha da minha cabana.

O colmo voa, atravessa o rio, espalha-se pela ribanceira.

O que voa alto fica suspenso nos ramos da grande floresta,

o que voa baixo cai vai girando cair nas ravinas.

As crianças da aldeia do sul riem-se da fraqueza da minha velhice:

têm a audácia de me roubar às claras:

abertamente arrancam o colmo e fogem por entre os bambus.

Grito até ficar com a boca seca: não adianta nada.

Volto para casa, suspiro, apoiado ao meu bastão.

O vento cessa bruscamente, mas as nuvens continuam negras,

o céu de outono é silencioso e escurece com o vir da tarde.

Os lençóis e cobertas são velhos, frios como ferro,

as crianças, sensíveis, com repugnância, rasgaram-nos a pontapés.

Todos os leitos do aposento são úmidos: não há um lugar seco,

sinto cãibras nas pernas, não as posso estender.

Aflijo-me, lamento-me, durmo muito pouco,

a noite é longa e úmida, como a poderei passar?
Quem pudesse construir um vasto edifício com milhares de peças,

imenso, que protegesse todos os que têm frio no mundo,

deixando-os de rosto feliz!

O vento e a chuva não o poderiam destruir: seria sólido como uma rocha.

Ai de mim, quando chegará o momento de ver de repente essa casa aparecer diante dos meus olhos?

Minha cabana desmoronou-se. Aqui vou morrer do frio que entra.

E tudo estará bem.



Tu Fu (712 - 770)
Poemas chineses/ Li Po, Tu Fu; tradução Cecília Meireles.
RJ, Nova Fronteira, 1996

Paulo Pedro disse...

秋宵月下有怀


秋空明月悬

光彩露沾湿

惊鹊栖未定

飞萤卷帘入

庭槐寒影疏

邻杵夜声急

佳期旷何许

望望空伫立


Contemplação da lua em noite de outono.


Lua de outono brilha ao céu vazio

incandescência na gota de orvalho

Acomodaram-se em algazarra as gralhas

do frio vêm vagalumes às cortinas

No pátio às árvores esparsas sombras

este pilão na casa ao lado soa

Como saber do tempo à hora vasta

o persistente nada olhar olhar

________

Meng Haoran
Antologia da Poesia Clássica Chinesa – Dinastia Tang. Traduções de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao Ed UNESP, 2013 http://www.musarara.com.br/poesia-classica-chinesa-2

Paulo Pedro disse...

Primavera

Some trees still
have naked winter look
- Spring day

Algumas árvores ainda
exibem a nudez do inverno
- Dia de primavera


Spring night –
the neighbor hammering
In the new old house

Noite de primavera
o vizinho martelando
Em sua nova velha casa


Spring dusk
on Fifth Avenue
A Bird

Crepúsculo de primavera
na Quinta Avenida
Um pássaro


_________________

Verão

This july evening
A large frog
On my doorsill

Esta noite de julho,
Um grande sapo
Na soleira de minha porta


My rose arbors knows more
about June
Than it’ll know about winter

Meu roseiral sabe mais
sobre junho
do que vai saber sobre o inverno


Beautiful summer night
gorgeous as the robes
Of Jesus

Linda noite de verão
gloriosa como as vestes
de Deus


___________

in USA
Spring: March - May
Summer: June - August

Kerouac, Jack. Livro de haicais (tradução Cláudio Willer)
Porto Alegre, RS, L&PM, 2013

Paulo Pedro disse...

Outono

August in Salinas –
Autumn leaves in
Clothing store displays

Agosto em Salinas
Folhas de outono nas
Vitrinas das lojas de roupas


Old man dying in a romm –
Groan
At five o’clock

Velho morrendo em um quarto
Gemido
Às cinco da tarde


The mist in front
of the the morning mountains
- late autumn

A névoa à frente
das montanhas da manhã
- fim de outono

____________________

Inverno

Thunder and snow -
how
We shall go?

Neve e trovão
como
iremos?


Hot tea, in the cold
moonlit snow –
a burp

Chá quente, no frio
da neva a luz da lua –
arroto


The whiteness of the houses
in the moon
Snow everywhwere

A brancura das casas
à luz da lua
Neve por todo lugar


___________________________

After the earthquake,
a child crying
In the silence

Após o terremoto
Uma criança chora
No silêncio



in USA
Autumn: September - November
Winter: December - February

Kerouac, Jack. Livro de haicais (tradução Cláudio Willer)
Porto Alegre, RS, L&PM, 2013