terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Acupuntura, mente-espírito e estados fásicos da consciência


Este texto foi adaptado de um capítulo da monografia de especialização em acupuntura intitulado “O mar de dentro, um estudo da concepção de cérebro, mente e espírito no sistema etnomédico chinês”, orientado pelo biofísico e acupunturista Prof. Jurecê Machado no curso de formação que ministrava, vinculado a Associação Brasileira de Acupuntura - seção da Bahia, inaugurada por Dr Heackel Mayer. Elabora uma revisão das referências às antigas descrições do “mar de medula”, relacionando este órgão que corresponde a concepção chinesa de cérebro, às modernas aplicações da acupuntura nas doenças nervosas (neurológicas, psiquiátricas ou psicológicas e psicossomáticas).

O presente objetivo é a descrição da concepção tradicional chinesa de mente ou consciência, enquanto função que permite o pleno domínio das emoções e adaptação do indivíduo a seu ambiente - a longevidade numa perspectiva materialista e a imortalidade numa concepção espiritualista, dedutível pelo uso de um mesmo ideograma (shén) para mente e espírito como veremos.

O exercício de algumas das diversas técnicas de concentração e domínio da atenção ou meditação, que conhecemos aqui no ocidente, tem origem no Taoísmo, no Budismo, nas religiões tibetanas, e no Hatha Yoga indiano. Podem ser descritas como técnicas  psicofisiológicas análogas, e são delas derivadas. Dispensam apresentação, por exemplo, as conhecidas técnicas de relaxamento progressivo e treinamento autógeno de Edmund Jacobson (1888-1983) e Johannes Heinrich Schultz (1884-1970) onde está implícito reconhecimento da neurofisiologia ou função cerebral da "consciência", nestes exercícios e função que ocupa uma posição central na neuropsiquiatria ocidental.

O interesse especial do estudo neurofisiológico da acupuntura em estender-se às técnicas taoístas, também designadas como alquímicas (da alquimia chinesa), não é apenas pelo exercício e rigor de uma abordagem antropológica que explora a unidade e diferenciação étnica dos povos asiáticos. Segue a clássica recomendação maussiana [2] de análise do “fato social total”  ou seja a recomendação de que um estudo não deve limitar-se a comparação de um item isolado ou um só aspecto de uma cultura.

Pode-se afirmar que o maior interesse da acupuntura nesta seara da neurociência é decifrar o enigmático conceito e ideograma do Shen que tanto pode ser entendido como espírito como por mente – consciência, ligado ao coração. Um dos cinco aspectos mentais juntamente com o Hun (alma etérea), o Po (alma corpórea) pertencente ao pulmão; Yi (intenção, tendência) e o Zhi (memória) ligado ao rim e jing ancestral e à própria mente (Shen). [3] Nesse texto nos ocuparemos do Shen comparando-o com as possíveis interpretações da neurofisiologia ocidental e concepções indianas das descrições de Patanjali.

Observe-se que nesta descrição está o modelo de mente-consciência como função que regula o corpo (Po - alma corpórea), permite a imortalidade (Hun -alma etérea) constituindo os desejos conscientes e tendências (Yi – intelecto) e a memória e a aspiração (instinto de sobrevivência) ou o shen – substância mental. Exploramos a relação desta com as emoções, meridianos e cérebro (o mar de medula) em um outro artigo sobre tal concepção abstrata de aplicações clínicas que é o objeto de nossa tese. No momento interessa-nos apenas o entendimento do shen enquanto representação do que entendemos por espírito – mente – consciência.

Como dito algumas das "modernas" técnicas de intervenção no tônus muscular e controle da tensão nervosa tem origem oriental e foram efetivamente incorporadas à medicina ocidental (neuropsiquiatria), com os nomes de: auto-hipnose, hipnose, treinamento autógeno, técnicas de relaxamento progressivo. Entre as formas de interpretação de tais efeitos ainda se utiliza o referencial teórico da neurofisiologia russa (pavloviana) sobre atividade nervosa superior, estados de fase e a consciência, [4, 5]  Embora grandes avanços se registrem no que atualmente designamos por funções executivas; “atividade da rede neural de modo padrão” (DMN Default Mode Network); [6] ou mesmo na própria neurofisiologia russa que relaciona os mecanismos da atenção (a unidade do tono, vigília e estados mentais) aos sistemas de assimilação - processamento (unidade de receber, analisar e processar informações) e execução de ações (unidade de programar, regular e verificar atividades), as três unidades funcionai propostas por A. R. Luria (1903-1978) para descrição da organização cerebral das atividades mentais. [7]

Contudo neste texto interessa nos o registro de que são essencialmente semelhantes: as descrições orientais (chinesas e indianas) de consciência e suas variações, e as  descrições ocidentais da consciência (atividade nervosa superior) e seus estados fásicos, detectáveis no eletroencefalograma. A consciência compreendida como frequência de ondas presentes entre a vigília e o sono, a saber: o estado de alerta; o estado alfa; o sono com sonhos (REM - Rapid Eyes Movement), o sono sem sonhos NREM (Non-Rapid Eyes Movement) e o estupor - coma.

Uma diferença básica entre essas concepções é observada quanto a diferenciação dos graus de estupor e coma (escala Glasgow) no ocidente e o desenvolvimento de estados metabólicos semelhantes à hibernação e/ou a crença na vida sem batimentos cardíacos e respiração nos estados catalépticos dos yogues e faquires no oriente.

Esta constatação nos situa então diante de dois grandes problemas que apenas a metodologia etnohistórica não parece ser suficiente (1) a comparação de crenças ou sistemas etnomédicos orientais (asiáticos) e (2) a comparação destes com pesquisas e teorias da medicina cosmopolita ocidental.

Segundo Tierra especialista em medicina oriental e tradutor de "Tao e Dharma" de Robert Svoboda e Arnie Lade, [8] um livro que explora as semelhanças e diferenças entre a medicina chinesa e ayurvedica, a distinção entre esses sistemas foi acentuado pelo modo como foram incorporados ao ocidente nas décadas de 70 e 80. Para acupuntura, onde se caracteriza uma abordagem físico-materialista houve um esforço desde a China para adaptar esta ao materialismo comunista chinês enquanto que a medicina ayurvédica acompanhou a trajetória da Yoga indiana acolhida pela filosofia espiritualista.

Svoboda e Lade apontam o uso do conceito de energia vital como principal elemento unificador e destacam a difusão do Budismo como elemento facilitador do intercâmbio entre esses sistemas reconhecendo porém o caráter empírico e particular de cada sistema.

Por outro lado, numa perspectiva  da integração do conhecimento produzido na cultura chinesa à atual medicina cosmopolita, apenas se inicia o interesse ocidental de psiquiatras (psicanalistas) por essa corrente mítico – religiosa. Na década de 1930 houve a tradução e comentário do “Segredo da Flor de Ouro” por Richard Wilhelm (1873-1930) e Carl Gustav Jung (1875-1961) e mais recentemente Alan Watts (1915-1973) escreveu o livro ”Psicoterapia oriental e ocidental” numa retomada deste interesse na década de 70. Pode-se dizer que houve também uma incorporação e difusão da acupuntura distinta da abordagem médica, físico-materialista, contudo também não plenamente aceita como científica, a contragosto dos representantes da psicologia analítica e contracultura com suas medicinas alternativas.

Segundo Jung é nesse importante texto, “A Flor do Ouro” que encontramos uma clara reflexão sobre a consciência, no seu sentido mais amplo e profundo incluindo as paixões, exigências instintivas  e o caminho ou forma de libertação dos opostos, segundo ele, comparáveis à psicoterapia ocidental (individuação). Atribui a esse livro (O segredo da Flor de Ouro) e ao Livro Tibetano dos Mortos (Bardo Thödol) seu interesse e compreensão da alquimia (européia) como um caminho de auto – conhecimento.  [9]

A descrição oriental detalhada do espírito, (o que inclui as formas de pensamento e controle corporal) e do processo em que a alma se separa do corpo, são os objetos desse saber. Para Jung assim deve ser interpretado o texto tibetano utilizado em rito fúnebre da grande libertação no Tibet - o Bardo Thodol que significa literalmente a  libertação pelo entendimento da vida após a morte..

A avaliação das possibilidades de perceber e conhecer o Eu verdadeiro independente dos condicionamentos dos órgãos dos sentidos, hábitos de raciocínio e os conjuntos de arquétipos e complexos de idéias do universo da psique são claramente detalhados nos textos orientais e ainda segundo o autor de uma psicologia do oriente e ocidente, excepcionalmente úteis para compreender os fenômenos de alteração da consciência, o sofrimento da psicose e transtornos mentais. 

Contudo os textos orientais ainda nos parecerão enigmáticos se vistos apenas como mítico – religiosos, embora nos obriguem a pensar sobre a realidade de sua aplicação à prática clínica.  As técnicas do yoga e acupuntura, por exemplo são utilizadas a milhares de anos e naturalmente houve um acumulo de experiência empíricas, conhecimento, que talvez provenham unicamente dessas experiências (?) como querem os cientistas apegados ao paradigma do materialismo científico.

a sabedoria da racionalidade mítica

Observe-se que a distinção entre mito e ciência, analisados á luz da antropologia estrutural, se realiza a partir de sua fundamentação na percepção (ciência ocidental) e na introspecção (mito) segundo Levi Strauss em seu clássico  Pensamento Selvagem.

Em nossa revisão, vale registrar, encontramos este fragmento de texto abaixo citado, que traz uma outra interessante coincidência, trata-se da descrição do método da introspecção utilizado no pensamento “mítico” chinês. No caso utilizado para "observar-se" e conhecer a mente ou shen - o espírito que comanda o hsing (corpo).

Lê-se no “livro do imperador amarelo”, o mais antigo compêndio da medicina tradicional chinesa:

"O shen não pode ser escutado com o ouvido, o olho deve ser brilhante de percepção e o coração deve ser aberto e atento para que o espírito se revele subitamente através da própria consciência de cada um. Não se pode exprimir pela boca; só o coração sabe exprimir tudo quanto pode ser observado. Se presta muita atenção, pode-se ficar a saber subitamente, mas também pode-se perder de repente esse saber. Mas shen, o espírito, torna-se claro par o homem como se o vento tivesse varrido as nuvens. Por isso se fala dele como do espírito." 

Observe-se a semelhança com as técnicas de meditação e auto observação que, como comenta Eliade, conduziu ao desenvolvimento de uma psicologia na Índia, que reconhece pelo menos quatro estados de consciência: a diurna; a dos sonhos; a do sono sem sonhos; e a cataléptica; experimentadas racionalmente por exercícios respiratórios e de atenção que permitem o acesso lúcido a cada um desses estados correspondentes a uma freqüência respiratória.

Sem as medidas do eletroencefalograma os indianos (e talvez os chineses) identificaram e tem propostas de intervenção nos fenômenos bio-elétricos mapeados por esse aparelho, inclusive dos estados de anestesia (ondas teta e delta), não mencionados por Eliade mas conhecido por faquires com suas técnicas de meditação e acupunturistas com suas agulhas e ervas.  

Observe-se porém que a concepção chinesa envolve cinco aspectos distintos da concepção indiana e pavloviana de estados fásicos, mas também se adéqua à prática das técnicas de meditação, embora explore o controle das regulações orgânicas (e existência extra corpórea) distinguindo alma etérea e corpórea (Hun e o Po) e os diversos aspectos ou qualidades do Chi, a esfera dos desejos (Yi reflexão) e a memória e força de vontade (Zhi). Um modelo sem dúvida mais complexo, mas ainda por ser decifrado em comparações étnicas e neuroantropológicas que articulem as emoções e a regulação orgânica.

Os exercícios de meditação relativamente semelhantes ao que conhecemos como técnicas de treinamento autógeno que são conhecidos e amplamente divulgados com dezenas de variações em escolas indianas, chinesas e tibetanas precisam ser devidamente estudados na ótica de uma possível etnopsiquiatria ou neuroantropologia.

a essência, o corpo e a mente

Os chineses concebem o homem como um microcosmo, o homem  é um elemento de conjunção dos pares contrapostos, Céu - Homem – Terra, que constituem os 3 principais elementos do mundo, o eixo yin / yang dos San Tsai (Tan T'ien). Essa imagem segundo Jung é uma representação antiqüíssima  que de uma forma semelhante em diversas regiões, cita como exemplo o mito africano ocidental de Obatala e Odudua (Céu e Terra) pais primordiais, que jazem em uma cabaça até que um filho, o homem surge entre eles.

O homem tal como um microcosmos, encerra a conjugação em si próprio dos contrastes e da dualidade. A tarefa de libertação no pondo de vista oriental e da psicoterapia ou individuação na proposição Jungniana é compreender este processo ou sua origem.  Ambas concepções se constituem como caminhos de trazer calma e paz de espírito, (harmonia com o Tao) condição essencial para manutenção e recuperação da  saúde.

Acupuntura requer portanto o conhecimento e concepção de espírito? O Shen referido, denota um aspecto imaterial do ser - o espírito, equivalente à psique? A mente ou psique é um instrumento de transformação de símbolos - a energia psíquica. Na concepção jungniana das técnicas de meditação/libertação.

Numa concepção mais restrita a expressão Shen (às vezes traduzido por espírito e as vezes por sentimento) designa a manifestação exterior da vitalidade do corpo e em um sentido estrito representa a consciência que comanda o Coração e atividade mental. Esta compreensão está associada no referido sistema conceitual dos San Tsai (Tan T'ien) ao Jing (traduzido como essência ou Chi ancestral) que corresponde ao meridiano, e funções do rim na acupuntura e também o que os indianos conhecem como "karma" e nós (ocidentais) como determinação genética, na medida em que descreve nossa vitalidade como potencial herdado. O Qi, na acupuntura assume muitas formas ou significados condizentes com a função que exerce em cada momento.

O diagrama, abaixo referido,  mostra a relação entre o Shen, Jing e órgãos responsáveis pela assimilação e distribuição da energia Qi do ar e alimentos.  O Tien é o princípio cósmico imaterial; Qi, “ a raiz do homem”, (seu ideograma pode ser decomposto em grão de arroz e vapor) e Jing é a energia ancestral que se conserva no meridiano dos rins.


O Qi circula em um fluxo interno, transforma a essência do alento e a energia espiritual (shen). Atravessa os campos de transformação os 3 (san) jiao: shang Jiao (alto - suspender);  zhong Jiao (meio) e  Xia Jiao (baixo inferior) conforme a Doutrina Médica Chinesa, segundo o Huangdi Neijing obedecendo as leis as leis do  Yin/Yang e dos 5 elementos.




o espírito e o coração

Como é amplamente conhecido um grande numero de povos, inclusive nas nossas concepções populares e cristãs, atribui-se os sentimentos e algumas funções da mente ao coração. Segundo as antigas teorias expressas por exemplo no Ling Shu (parte integrante do livro do imperador amarelo) é o coração que “reúne o espírito”. O coração comanda vasos e encerra o pulso e o pulso é a morada do Shen. O ponto que localiza-se nessa região do braço correspondente ao meridiano do coração chama-se Porta do espírito (Shen Men)

Na pratica da acupuntura, talvez numa dimensão não apensas simbólica, mas exercida com o uso de agulhas em pontos específicos ... acalmar o coração é uma forma de acalmar o espírito.

Sabemos entretanto que textos mais recentes do sec. XVI e XVIII  já reconhecem como do cérebro as funções da memória e inteligência e percepções decorrentes dos órgãos dos sentidos. Na época Ming, Li Zhi Zhen (1518-1593) afirmava que o "cérebro" é a morada do Shen original (Yuan Shen) ou espírito.

 Essa "descoberta" porém não constituiu uma contradição às tradições que também afirmava que o espírito e o cérebro estão unidos pelo sangue ("O Qi empurra o sangue (Xue). O sangue nutre o Qi").  Além do que como pode ser constatado em qualquer manual de acupuntura moderno existem estratégias de diagnóstico e tratamento com agulhas, moxabustão e ervas medicinais para as diversas patologias neurológicas, psiquiátricas ou psicológicas e psicossomáticas diagnosticadas como doenças nervosas no ocidente desde a evolução da medicina hipocrática (a quem se atribui a descoberta da relação entre o cérebro e a mente) em direção a medicina ocidental cosmopolita.

Entre as primeiras iniciativas de integração da medicina tradicional chinesa com a medicina ocidental deve-se destacar as contribuições da Revolução Cultural e Ministério da Saúde Pública da República Popular da China, propondo estrategicamente a criação de profissionais de nível médio versados em medicina tradicional chinesa e saúde pública, denominados Médicos de Pés Descalços e principalmente um caminho para sua formação onde se destaca a revisão do ensino da acupuntura. Foi elaborado o “livro dos quatro institutos” uma reunião das diversas tendências e escolas de acupuntura (Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjing; Academia de Medicina Tradicional Chinesa).

Um livro que também re-apresentou a acupuntura ao ocidente e já incluía as concepções de patologias do ocidente, em nosso caso a histeria, distúrbios mentais depressivos e maníacos além de diversos sinais e sintomas de doenças neurológicas e psicossomáticas tipo insônia, ansiedade, impotência, ejaculação precoce, enurese noturna etc.

Não se deve esquecer também que os chineses antigos já reconheciam o órgão cérebro (mar de medula) e lhe atribuíam funções próximas das modernas concepções. Lê-se no Ling Shu: ..." o mar da medula em excesso significa um relaxamento muscular que ultrapassa a medida"... O que pode muito bem ser referências ao coma, estupor ou paralisia flácida numa escala de gradações do relaxamento e ..."o mar de medula em insuficiência provoca zumbidos de ouvidos com atordoamento do “cérebro” (vertigens). Observa-se dores intensas nas pernas, vertigens e perturbações na vista. O relaxamento incita ao sono"...

Enigmáticas entretanto continuam as relações entre este órgão e a mente, tanto para os gregos tal como evidenciam as divergências entre Hipocrates (460 – 370 a.C.) e Aristóteles  (384-322 a.C.) como para a moderna neurociência que ainda se vale de distintos modelos (a exemplo dos citados acima derivados da concepção pavloviana) utilizados nas distintas especialidades médicas (neurologia, endocrinologia, psiquiatria, anestesia, fisiatria, foniatria) e paramédicas (psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia etc.) entre as quais está se inserindo o profissional de acupuntura.

Para alguns patologias autores modernos tem pesquisado equivalências aos desequilíbrios e agravos descritos na medicina chinesa antiga (a exemplo da síndrome dian kuang considerando a forma de classificação das emoções, (ética de relações interpessoais), a mente - espírito e o comportamento adequado (inclusive dietético) nas diversas estações do ano, um equilíbrio entre fatores internos e externos como se aprende nos ensinos de Huang di, o “Imperador Amarelo em dialogo com seu médico e aprendiz Qi Po.



Referências

1 COSTA Paulo Pedro P. R. O "mar de dentro" um estudo da concepção de cérebro, mente e espírito no sistema etnomédico chinês. Monografia para conclusão do Curso de Acupuntura Sistêmica e Auriculoterapia na Escola Científica de Acupuntura - CLIMA
filiada à Associação Brasileira de Acupuntura seção Bahia  tendo como Orientador: Prof. Jurecê J. Machado. Salvador,  julho de 2000

2 MAUSS Marcel. Sociologia e antropologia. SP: Cosac Naiify, 2003

3 MACIOCIA, Giovanni. Os fundamentos da medicina chinesa. SP: Roca, 2015

4 PAVLOV, Ivan P. O problema do sono (1935) in: PAVLOV, Ivan P. Reflexos condicionados e inibições. RJ: Zahar, 1972

5 ASTRUP, Christian. Psiquiatria pavloviana, a reflexologia atual na prática psiquiátrica. RJ: Atheneu, 1979

6 RAICHLE, Marcus E. A energia escura do cérebro. Scientific American Brasil, Edição especial neurociência 1; (26-31), fevereiro – março de 2014. São Paulo

7 LURIA, Aleksandr R. Fundamentos de neuropsicologia. RJ: Livros Técnicos e Científicos. SP: EDUSP, 1981

8 SVOBODA, R; LADE, A. Tao e Dharma, medicina chinesa e ayurveda. SP: Pensamento, 1998

9 JUNG, Carl G. Psicologia e religião oriental. RJ: Zahar, 1986

10 ELIADE, Mircea. Yoga: imortalidade e liberdade. SP, Palas Athena, 1996

11 ELIADE, Mircea. Patañjali e o Yoga. Lisboa: Relógio d’água, 2000

12  WANG, Bing Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo (Dinastia Tang – Edição bilíngue). SP, Ed Ícone, 2001

ver também

NEI CHING, O livro de ouro da medicina chinesa, RJ, objetiva. reedição da primeira tradução para língua portuguesa publicado por Editora Minerva, Pt, 1940

LING – SHU, Base da acupuntura da medicina tradicional chinesa. Tradução e comentários de Ming Wong. SP, Andrei, 1995

JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. RJ: Zahar, 1974

JUNG, C.G. O segredo da flor do ouro, um livro de vida chinês. RJ, Vozes, 1992

LEVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem São Paulo, Companhia Ed Nacional, 1976

LEVI-STRAUSS, C. A Natureza do Pensamento Mítico, IN: A Oleira Ciumenta São Paulo, Ed Brasiliense, 1986

WATTS Alan W. Psicoterapia oriental e ocidental. RJ, Record, 1972


oxxxxxxxxxxxxxxxxx------------------------------


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A criação de Pan Gu

盘古开天辟地



 No princípio havia o não-ser, a insondável nuvem sem forma. O céu e a terra estavam em um mesmo e único não - lugar. Assim como tudo, não tinham nome, pode-se dizer que o que existia era o caos,  混 乱 o ovo cósmico 盘古, Tai Chi , a grande energia,  o  Tao.

O Tao em seu movimento gerou o Um. O Um gerou o Dois. O Dois gera o três e logo depois toda a escuridão. O ser que existia, então, toma a forma de um homem chamado Pan Gu 盘古. O trabalho desse homem é separar o leve, rosa-claro e brilhante (Yang ), do denso, escuro e pesado (Yin  ). Assim, Pan Gu começou a separar o céu da terra.

Para fazer seu trabalho, Pan Gu crescia empurrando o céu 天空 com a sua cabeça, pisando no chão com os seus pés. Esse esforço foi a sua vida .

Exaurido, deitou-se sobre si mesmo formando a terra; seu olho esquerdo brilhou e nasceu o Sol e, do olho direito nasceu a Lua 月亮. Seu fôlego expandiu-se em forma de vento e sua voz ressoou em trovão.

Dos seus pés e cabeça, formou-se o Himalaia e todas as outras cadeias de montanhas; de seus ossos e dentes espalhados pela água , ao secar formaram-se as minas e os metais . A medula branca, líquidos cristalinos e outras gorduras, junto com o sangue , ao separar-se originaram os rios e mares.

A sua pele , tendões, os seus pêlos e unhas transformaram-se na madeira , e o manto da vegetação foi cobrindo toda a terra, em sua primeira primavera. Os músculos pulsantes e artérias deram forma ao fogo dos vulcões e ao calor da terra envolvida em sua neblina com chuvas 雨.

No seu corpo, porém, havia pequenos seres que dele viviam, exatamente desses parasitas de energia formou-se o pequeno homem . Esse que povoou o mundo, junto com todos os dez mil seres que, sucessivamente foram nascendo uns dos outros feito a madeira que se incendeia em fogo, gera a terra, onde está o metal que cava a água que alimenta a madeira.

____________________

Referências

Abreu, Antonio D. (Editor). Mitologia chinesa [Mitologia Primitiva], Quatro mil anos de história através das lendas e dos mitos chineses. SP: Landy, 2000

Pangu Separates the Sky from the Earth http://www.chinavista.com (2003)


Pan Gu, Chinese mythology.  Britannica.com https://www.britannica.com/topic/Pan-Gu (2017)

Ilustr. Arthur Lidov’s Medical Landscapes

Adapatação do mito: Costa, Paulo Pedro P. R. publicado originalmente
Verbo, poemas. BA: HarpDan; FazCultura, 2003

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Resenha: A Histeria de Katharina de Freud Tratada com Acupuntura



Este livro de 224 páginas, que paradoxalmente aborda um caso clínico de “histeria” na ótica ocidental e oriental, abrange um verdadeiro abismo conceitual entre dois universos de teorias e tradições, uma patologia já descrita na medicina hipocrática associada ao útero (do grego: “hystera” que em chinês é 子宫 Zǐgōng - palácio da criança) e uma patologia identificada na medicina tradicional chinesa e/ou incluída como tratável com acupuntura.

Por outro lado é surpreendente como Vicente Zaffarani Neto e Ednéa Iara Souza Martins conseguiram executar esta tarefa, evidenciando mais uma vez o valor dos modelos abstratos (teórico-científicos ou míticos- tradicionais) para delimitar um fenômeno ou transtorno (um distúrbio mental neste caso) discriminando suas nuances e variações com suas ferramentas conceituais para classificação e intervenção clínica.



A patologia em questão é descrita em chinês com os ideogramas 歇斯底里 (xiē, sī, dǐ, lǐ) traduzido para línguas ocidentais e vocabulário médico atual como “histeria” onde literalmente: xiē 歇: significa ir para a cama, descansar, nocautear; sī 斯 : é o pronome “este”, “esta”; 底 dǐ: traduzível por “inferior” ou “fundus” (latim para "fundo") um termo anatômico que se refere à parte de uma concavidade em qualquer órgão, que está na extremidade distante de sua abertura; e finalmente lǐ 里: interior, forro revestimento, vizinhança, local onde se vive.

Os ideogramas que designam a “histeria” podem ter sido adotados desde sua incorporação à medicina chinesa após a revolução cultural, já fazem parte da relação de patologia incluídas no Livro dos Quatro institutos patrocinado pelo Ministério da Saúde Pública da República Popular da China publicado em 1964. Contudo esta patologia não foi incluída na Lista com as indicações da Organização Mundial de Saúde (OMS ) para a acupuntura de 1979. Nessa lista estão doenças para as quais se tem comprovação científica da eficiência do tratamento, mas não são necessariamente as únicas doenças tratáveis pela acupuntura.

É possível ainda, que esta patologia já tenha sido estudada pelos médicos chineses que entraram em contato com as concepções da medicina hipocrática como nos mostrou os estudos do sinólogo Joseph Needham (1900 -1995) sobre a similaridade entre os conteúdos do "Livro do Imperador Amarelo" com o Corpus Hippocraticum (460 – 379 a.C.) - conjunto de textos atribuído a Hipócrates, ou os registros de contato entre tais civilizações através da "rota da seda". (Needham; Carneiro)

O conceito de histeria possui uma longa história e trajetória desde sua origem na medicina grega, incorporação à medicina ocidental cosmopolita e psicopatologia. Foi revisto por Sigmund Freud (1856-1939) em finais do século XIX, (como abordado no livro) ainda persiste na psicologia e psiquiatria dos nossos dias com o CID F44 - transtornos dissociativos (ou conversivos), a histeria de conversão com dez subcategorias (da F44.0 a F44.9) e F41.8 a histeria de ansiedade.

O próprio Freud modificou suas concepções e forma de tratamento da histeria ao longo de sua carreira de acadêmico e médico clínico, do uso da hipnose à “livre associação” e “interpretação dos sonhos” (a psicanálise); da etiologia desta neurose na sedução (ou abuso por adultos) à dissolução do “complexo de Édipo” e fantasias inconscientes. Nos legou um sofisticado modelo de interação entre a mente, o cérebro (o aparelho psíquico) e o corpo – o seu “Projeto para uma Psicologia Científica” (1950 [1895]) onde dedicou um capítulo especial à psicopatologia e à “formação simbólica” e “intensidade das ideias” na histeria.



O livro “A Histeria de Katharina de Freud Tratada com Acupuntura“ escrito por dois especialistas em acupuntura, o Vicente Zaffarani Neto, também psicólogo com especialização em psicanálise e Ednéa Iara Souza Martins autora dos Atlas dos Pontos de Acupuntura (Ed Roca, 2011), especialista em acupuntura pelo Conselho Regional de Odontologia, nos apresenta uma cuidadosa revisão destes dois momentos ou aspectos desta síndrome.

Está subdividido em 9 capítulos a saber:

1 - A Medicina Tradicional Chinesa na Era Científica
2 - A Katharina de Freud
3 - "Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos”: Comunicação Preliminar (1893)
4 - O Significado das Emoções
5 - Etiopatogenia na Medicina Tradicional Chinesa
6 - Função Psíquica na Medicina Tradicional Chinesa
7 - Etiologia e Patogênese das Doenças Psíquicas na Medicina Tradicional Chinesa
8 - Classificação das Doenças Mentais na Medicina Tradicional Chinesa
9 - A Histeria de Katharina na Medicina Tradicional Chinesa

Os autores em sua cuidadosa revisão dedicam pelo menos três capítulos a análise do modelo freudiano de descrição/intervenção na histeria e modernas concepções sobre a psicofisiologia (na concepção ocidental) das emoções além de procederem uma cuidadosa revisão das concepções da medicina tradicional chinesa sobre as doenças mentais e particularmente sobre a histeria, como era de se esperar.

A classificação das doenças mentais descritas aqui corresponde ao apresentado no livro Tratamento das Doenças Mentais por Acupuntura e Moxabustão, de Ye Chenggu, publicado e traduzido em Pequim, o que diminui as chances de erros de tradução e interpretação. Na visão da medicina tradicional chinesa adotada por Zaffarani Neto & Martins além da histeria, entre as doenças mentais incluem ou destacam-se, principalmente:

• Palpitação e estupor.
• Insônia.
• Sonolência.
• Amnésia.
• Síndrome de bentun.
• Depressão.
• Síndrome de síncope.
• Esquizofrenia (depressiva e maníaca).
• Epilepsia.

Na medicina Tradicional Chinesa histeria é comumente definida como um distúrbio mental provocado pelo fogo, resultante da repressão das emoções e frustração (Livro dos 4 institutos; Xi Wenbu). A revisão realizada por Zaffarani Neto & Martins, não foge a este consenso de associação à desejos insatisfeitos e excessos emocionais, reconhece porém a complexidade das manifestações dos sintomas e demanda de distinguir a histeria das síndromes zang zao (agitação visceral, depressão, histeria); meihe (globus hystericus); melancolia; depressão e síncope.

Assinala ainda que etiologicamente pelo menos três condições “energéticas” (na concepção da medicina chinesa) podem ser identificadas e utilizadas como critério de escolha de pontos para acupuntura associados: a deterioração do “qi” (chi) do coração; a “estagnação do qi do fígado transformando-se em fogo ascendente” ; a “estagnação do qi do fígado prejudicando a função do baço (meridiano do baço-pâncreas).

Destaca as citações do Ling Shu, referentes ao equilíbrio entre o corpo a mente e o shen (o jing, o chi e o shen). Detém-se nas dificuldades e possibilidades de traduzir o Shen, espírito, consciência, energia do coração – o órgão meridiano diretamente relacionado à patologia em questão – o coração é o órgão que alberga o shen, as doenças do coração pertencem ao campo mental. Do Ling Shu, por exemplo, nos revela que no capítulo 2, se lê: "As inquietações e as infelicidades estorvam a circulação do qi.A raiva excessiva extravia. É incontrolável. O temor excessivo dispersa a mente"

No caso da histeria evidencia-se a formas como fatores patogênicos internos explicam os efeitos nocivos sobre os órgãos das emoções excessivas tanto em quantidade, como em qualidade. Apesar de enfatizar o tratamento com acupuntura ou a possibilidade de tratar o psiquismo atuando sobre os órgãos e vice-versa (o tratamento do órgão pode atuar de forma eficiente nos sintomas ou mesmo na emoção relativa ao padrão), não deixa de incluir nas recomendações ao tratamento desta patologia a necessidade de mudança de hábitos alimentares, aquisição ou desenvolvimento de técnicas e práticas de exercícios (a exemplo do chi kung, tai chi chuan e outros métodos) e sobretudo meditação, voltando-se ao shen – unificando o corpo psíquico e a mente em razão da inter-relação entre os órgãos e a atividade mental.

Sobre a mente consciência ou inteligência são frequentes a mostra de suas consultas à fontes tradicionais quando nos deparamos com a citação esclarecedora de que "A inteligência alimenta-se na vida. Deve ela estar de acordo com as 4 estações, adaptar-se ao frio e ao calor, à alegria e à raiva; situar-se na calma, a fim de harmonizar o yin e o yang, aliar força à doçura. Pode assim evitar doença e prolongar a vida'

Recuperando também para nós um “clássico” estudo ocidental, a definição de Soulié de Morant (1878-1955), para quem o o Shen:

"[...] é o plano superior, é o diretor psíquico da consciência e da compreensão, da razão, o juízo do sentido comum, a crítica; a consciência, a verdadeira inteligência; que compreende sem ter aprendido e por simples comparação utilizando algumas vezes a percepção do exterior no momento transformante e na memória do passado apartada pelo Roun (hun), para colocar de acordo com a captação, as reações hereditárias e adquiridas, e as possibilidades do real'".

Enfim, os autores desta análise de “histeria de Katharina de Freud” à luz da medicina tradicional chinesa estão de parabéns. Uma leitura essencial para antropólogos que pesquisam os textos clássicos de antigas civilizações ou "documentos etnológicos brutos" para nós ocidentais que utilizamos as ferramentas conceituais da antropologia estrutural na proposição de Lévi-Strauss.

Para este autor, o mito, nos fornece modelos que não diferem da ciência pelo gênero de operações mentais (relações de determinação ou classificação), e sim, pelas relações que estabelecem com a “percepção” (mais desenvolvida no pensamento científico) e “ a intuição sensível” (mais desenvolvida no mito - de certo modo semelhante a arte (bricolage), representando estratégias distintas do conhecimento humano (Lévi-Strauss. O pensamento selvagem, 1976).

Uma leitura essencial para neurocientistas ocupados com a integração de distintos sistemas teóricos como psicanálise - reflexologia; reflexologia - behaviorismo (medicina comportamental) ou entre a concepção de um cérebro reptil no modelo triúnico de Paul MacLean e os modelos funcionais de Luria / Anokhin etc.

Será possível uma integração entre sistemas teóricos concebidos em bases cognitivas distintas? A presente proposição baseou-se na perspectiva de que a observação de como é feita a descrição de um fenômeno patológico ou fisiológico em distintas concepções etnomédicas pode esclarecer as diferenças entre as distintas formas de explicação - intervenção em questão. Vale ver.

Referências

ZAFFARANI NETO, Vicente, MARTINS, Ednéa Iara Souza. A Histeria de Katharina de Freud Tratada com Acupuntura. SP: Roca, 2010 ISBN: 9788572418751

YE CHENGGU. Tratamento das doença mentais por acupuntura e moxabustão. SP: Roca, 2006

XI WENBU (Beijing, China) Tratado de Medicina Chinesa. SP: Roca, 1993

OMS / WHO Classificação de Transtornos mentais e de Comportamento da CID-lO: Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas - Coord. Organizo Mund. da Saúde; trad. Dorgival Caetano. - Porto Alegre: Artmed, 1993.

NEEDHAM, J.; GWEI-DJEN, L. Celestial Lancets: a history and rationale of acupuncture and moxa. UK, Cambridge University Press, 1980.

LING – SHU. Base da acupuntura da medicina tradicional chinesa. Tradução e comentários de Ming Wong. São Paulo. Andrei. 1995.

LÉVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem SP, Ed. Nacional, 1976

FREUD. SIGMUND. Publicações pré psicanalíticas e esboços inéditos. Edição Standard das Obras completas de Sigmund Freud. V. I / 24 v. (1886-1899). RJ, Imago, 1996

Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjig; Academia de Medicina Tradicional Chinesa. Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa (Livro dos 4 Institutos). SP, Ed. Ícone, 1995

CARNEIRO, Norton Moritz. Acupuntura baseada em evidências. Florianópolis, SC, Ed. do autor, 2000

___________________________

Women under Hysteria1876-1880
(Attitudes Passionnelles, Debut d'une Attaque; Hystéro-Épilepsie Attaque)
D.M. Bourneville and P. Régnard (montage by wikimedia commons)


domingo, 17 de julho de 2016

Para ser um acupunturista

p/ Erin Langley, 2015
tradução Paulo Pedro P. R. Costa, 2016

Sei que como um acupunturista, eu não publico muito sobre agulhas. As agulhas são uma realidade; você pode ler sobre os efeitos da acupuntura em muitos outros lugares. Não tenho nenhum interesse em convencer ninguém de nada, e a eficácia da acupuntura não é consequência nem depende de sua crença. Não é só mais uma coisa agradável que se aprende com estudos, mas uma cura que fala por si mesma. A colocação de agulhas e moxa requerem anos de treinamento, teoria e prática. A tradição médica chinesa é construída sobre milhares de anos e milhões de participantes que a vivenciam. A acupuntura baseia-se em uma conversa intuitiva entre os corpos (o praticante e seus interessados clientes), bem como tudo o que nós fazemos com a nossa vida fora do lugar de tratamento.

Acupuntura e fitoterapia é o refinado conhecimento que você encontra aqui. Os provérbios médicos, os ditos espirituosos, o saber ancestral, as entrevistas, as antigas tradições do mundo, a arte, as ervas, a cerimônia; essa é a minha prática. Nós trazemos todos os nossos mundos para a mesa, uma colaboração das galáxias. Os antigos médicos praticavam diversas formas de arte — caligrafia, poesia, artes marciais, adivinhação (clarividência) - para cultivar o aprofundamento e equilíbrio. Usavam suas múltiplas superfícies para lapidar-se e tornarem-se um melhor espelho de cura. (Você já se sentiu melhor apenas de pé ao lado de alguém?)

A capacidade do praticante, e o relacionamento entre você e ele, dão o tom da cura. Com os adjetivos com que ele modifica sua medicina? Será que ele encarna os princípios fundamentais da cosmologia chinesa? Será que ele pratica uma forma de arte mais sincrética? O crédito principal vai para a própria medicina, surgindo através de nossas mãos e corações em várias regiões da terra. Nós mergulhamos nossas principais crenças na tinta dos ensinamentos originais para escrever novas prescrições que se adéquam a este tempo e lugar.

Eu exploro continuamente minhas próprias raízes para que possa praticar a medicina de uma outra cultura com o devido respeito. (cursei um mestrado na Universidade de Naropa sobre o saber Indígena. Assim apropriadamente eu tenho me dedicado ao longo de minha vida na recuperação minha mente indígena / ancestral porque Chogyam Trungpa Rinpoche criou este “dharma” acadêmico no Ocidente. Sinto tais correntes espirituais como alças gêmeas do meu DNA. )

Antes de abrir a clínica Acupuntura Ancestral, eu fui a Terra da Medicina de Buda pedir permissão para praticar acupuntura. Perguntei aos meus antepassados, e perguntei aos espíritos da terra com os quais eu trabalho. Eu continuo a fazer oferendas a esses aliados, aperfeiçoando a cura. Em harmonia com todos. (Medicina chinesa, e medicina indígena, sempre foram praticada em conjunto com a terra e antepassados. Estas divisões (ismos) são novos.)

Nossa cura colaborativa depende de tempo, espaço, relação médico-paciente, (interessado cliente /co-conspirador - praticante), e todas as forças invisíveis que trazemos à tona, incluindo as da liberdade e do destino. Quando tratamos com a totalidade da pessoa, nós lidamos com suas extensões – ascendência, legado (em qualquer forma que tenham), e todos os outros relacionamentos. O passado é tão fluido como o presente e o futuro.

Eu trabalho sob a premissa de que todo mundo, em sua inteireza, já estão curados. Isso libera uma energia lúdica, assim como nós choramos juntos sobre os acontecimentos (coisas) mais recentes. Tudo está sendo tratado; tudo é medicina. Focalizar esta ampla base na ponta de uma agulha - é o desafio que eu amo.

_______________________________________

Desde que eu sou um acupunturista, aqui estão alguns aspectos técnicos úteis à técnica de agulhamento, caso você pense que quer ouvir falar sobre isso:

-Introduza e retire a agulha durante a inspiração ou exalação para conseguir um efeito mais preciso.

- Gire a agulha certo número de vezes para "tonificar," e um número diferente de vezes para "sedar"

- Gire a agulha numa direção em relação ao outro para conseguir diferentes efeitos

- Agulhe na direção a favor ou contra o fluxo do canal para tonificar ou sedar, respectivamente

- Agulhe os pontos distais para tratar distúrbios superiores

- Agulhe superficialmente ou (ou contacte a agulha) para distúrbios superficiais, ou para provocar mudanças rápidas usando mais o aspecto yang do corpo (superfície)

- Coloque moxa sobre a cabeça de uma agulha para enviar o calor ou impulso em um ponto de acupuntura

- Puncione vasos sanguíneos para sangrar pontos e reduzir alguns tipos de dor ou para libertar calor do corpo

- Agulhe de acordo com a hora do dia para aproveitar a energia onde ela estiver mais concentrado e disponível

- Use estimulação intensa e exata do couro cabeludo para derrames e tremores.

- Use prescrições de ponto, feito constelações sobre o corpo, para recalibrar o corpo mais amplamente que a "função de ponto único"

- Use a ordem correta de pontos (questões de ordem)

- Considere as nuances de relacionamento entre sistemas de órgãos com teoria dos cinco elementos (agulha no canal do Pulmão para nutrir o Rim, o pulmão [metal] é a Mãe do Rim [água])

- Coloque música ou mantras para realçar o efeito dos pontos

-Tenha a pessoa participando visualmente do agulhamento em momentos apropriados para realçar o efeito

- Responda espontaneamente para os auspícios de tempo e espaço (evidenciado no corpo aparente de uma pessoa)

- Interaja espontaneamente com a dimensão superior de tempo e espaço (evidenciado o corpo aparente de uma pessoa)

- A teoria corroborada com a intuição; sabe quando abandonar a teoria.

- Isso representa uma pequena amostra dos detalhe da acupuntura. Nossa medicina sem fim, me desconcerta com seus detalhes, extensão e complexidade.

_______________________________________

Ancestral Acupuncture foi criada por Erin Langley, MSOM, LAc, Dipl OM , uma acupunturista, artista, oneiromante, mãe e amante-de-rochas que vive em Oakland, Califórnia. Com experiência e estudos na Universidade Naropa em Oakland, Califórnia - Masters degree sobre Indigenismo (Indigenous Mind); Mantic Arts com Liu Ming, fundador do Da Yuan Circle e Five Branches University e Acupuncture and medicina Integrativa no Berkeley College.

Ancestors Acupuncture Apothecary - 15 de abril de 2015
http://www.ancestralacupuncture.com/blog-2/2015/4/15/i-am-an-acupuncturist

Bio: http://www.ancestralacupuncture.com/about/

Quanto a incrível Ilustração anatômica de artista desconhecido (se alguém sabe quem fez isso, diga-nos o seu nome!)

terça-feira, 5 de maio de 2015

Aforismos antigos, provérbios e conselhos para controle das emoções e manutenção da saúde nas tradições das medicinas chinesa, grega e semítica.

Na pretensão de tornar comparável a medicina tradicional chinesa à nossa prática atual da acupuntura, estudando sua história, torna-se quase que impossível não observar as aparentes semelhanças entre seus conceitos e os da antiga medicina grega. Especialmente a relação entre as narrativas que tomam os elementos da natureza: o fogo (火), a terra (土), o metal (金) e a água (水) e madeira (木) e os quatro elementos descritos na antiga Grécia: fogo (πῦρ pur); terra (γῆ ge); ar (ἀήρ aer) e água (ὕδωρ hudor) relacionáveis à estações do ano.

Por outro lado sabe-se que a comparação de povos distintos é o maior desafio da etnologia. Não há dúvidas também que somente com as ferramentas da etnologia / antropologia-histórica é que se pode ter uma visão da sociedade grega como um todo, e suas complexas divisões entre cidades-estados ou povos de origem, como por exemplo, nesse caso, os Jônios (povo de origem de Hipocrátes e Epicuro), e sua distinção dos Eólios, Dórios e Aqueus, entre outros, especialmente para uma análise das tradições chinesas desde sua evolução até as nossa práticas atuais.

Comparando as tradições ocidentais com as da antiga China observou-se que o nexo estabelecido entre estações do ano e patologias é nitidamente explorado, como causa potencial, tanto na medicina tradicional grega como chinesa (ver artigo). O mesmo pode ser dito quanto a atribuição de importância às emoções no processo saúde-doença nas “sobrevivências” judaico cristãs das medicinas semíticas (ver artigo).

Estendendo um pouco mais a pretendida comparação de “incomparáveis” (segundo Detienne) analisa-se o conjunto emoções - conceito essencial para entender a lógica das doenças na medicina tradicional chinesa – descritos por Epicuro com muito maior riqueza de detalhes que Hipocrátes embora este último já as aproximasse das modernas concepções de causa de doença mental ou psicossomática.

Epicuro, assim como Aristóteles, foi um filósofo com grandes contribuições à compreensão da lógica, afetos e emoções humanas. A escolha da descrição das emoções por Epicuro representando a concepção grega, se deve não só a atualidade da sua concepção mas também da importância se atribui hoje ao prazer e alegria tomados aqui provisoriamente como sinônimos.

Epicuro de Samos (em grego antigo: Ἐπίκουρος, Epikouros, 341 a.C., Samos — 271 ou 270 a.C., Atenas) deixou seguidores especialmente na na Jônia, região da costa sudoeste da Anatólia, hoje na Turquia onde viveu Hipocrates e o seu discípulo médico, Asclepíades de Bitínia (129 a.C. - 40 a.C.).

A Bitínia corresponde a antiga região do noroeste da Ásia Menor (Anatólia), Asclepíades por volta do sec. I a.C. influenciado pelo atomismo de Epicuro, realizou um revisão crítica à obra de Hipocrates quando se discutia a perspectiva empírica e dogmática da arte médica. Segundo Rebollo embora tenha se autodenominado um dogmático, afastou-se tanto dos dogmáticos quanto dos empíricos, para ele o empirismo médico sem teoria era um contra-senso, e as teorias dos dogmáticos eram erradas e inadequadas, pois não consideravam os fatos relacionados com os diferentes estados de saúde e de doença ou perda da vitalidade.

A classificação das “máximas”, provérbios ou pensamentos de Epicuro selecionados por emoções, subdivididas em: Raiva (怒 nù); Alegria (喜 xǐ ); Preocupação (ficar pensativo 想 - si); Melancolia/ tristeza (melancolia / mágoa 悲 bēi); Ansiedade (忧 yōu) / Medo (恐 kǒng), correspondentes à classificação chinesa dos 5 elementos e estações do ano associadas às cinco emoções/sentimentos referidos se deve ao pretendido esquema de interpretação do Livro do Imperado Amarelo - Nei Jing (内經).

Quanto a Aristóteles apesar da sua contestação a localização Hipocrática das emoções e sentimentos no encéfalo, suas contribuições à natureza da lógica, mitos e racionalidade humana foram essenciais ao desenvolvimento da ciência. Inclusive a medicina ocidental que pelo menos até o século XVIII se fundamentou no legado hipocrático, que chegou até nós, pelas revisões de Galeno (129 - 217), à luz de Platão (428/427 - 348/347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) . (Rebollo)

Diagrama que ilustra o "sistema fisiológico" humano na concepção de Galeno segundo C. Singer; Claudius Galen; human physiology, 1925 (wikimedia commons / wellcome images)


Enkéfalo - εγκέφαλος / Suǐ Hǎi - suǐ (髓 medula) hǎi (mar)

Aristóteles considerava o cérebro um órgão frio cuja função era refrigerar o sangue quente que sai do coração e sobe a cabeça na forma de exalação. No cérebro, os vapores seriam então resfriados e condensados, descendo para o corpo na temperatura requerida para manutenção da vida (sem febre). Para ele o coração era a sede da alma racional e o cérebro o órgão da sensibilidade, do movimento e do pensamento, onde são formados os espíritos animais. O pneuma movido pelo pulmão (ar respirado e gases exalados) é o que é responsável pela inteligência e fonação, ao entrar pela boca, nariz. É através dos etmóides que penetra na cabeça onde sua parte “mais ativa” produz, no cérebro, a inteligência. (Rebollo; Cairus)

Nesse aspecto são enigmáticas também as semelhanças entre esta concepção das três almas descritas por Aristóteles e as explicações chinesas das energia vital e suas manifestações (五 神 - 5 Shen), enquanto: Zhi (desejo, aspiração, vontade) que possui uma relação com os meridianos ou funções vitais do rim e bexiga; Hun (clareza, alma etérea) corresponde aos meridianos do fígado e vesícula biliar; Shen (o espírito) que corresponde a um maior número de funções visto que representa quatro meridianos: o coração, o san jiao traduzido literalmente por tríplice aquecedor, o pericárdio também chamado circulação - sexualidade e o intestino delgado; Yi (intenção, desejo, repreensão) corresponde aos meridianos do estômago e baço pâncreas e Po (alma corpórea) corresponde aos meridianos do pulmão e intestino grosso. (Costa, 2003)

A concepção de cérebro na medicina chinesa situa-se relativamente mais próxima ao elemento da vitalidade e espírito animal” descrito por Aristóteles. O cérebro ou em chinês Nao (腦) ou Suí Hai (suǐ hǎi) é um dos órgãos extraordinários mencionado na literatura clássica como um dos quatro mares (Ling Shu) uma fonte (local de armazenamento) do Jing (Energia ancestral) formado pelos rins.

O Nei King se refere a este como o mar de dentro, do interior, numa palavra que usualmente é traduzida como medula (marrow), possivelmente também interpretada como referência não anatômica (parte de dentro/ grande quantidade). Notavelmente similar ao elemento de ligação da alma com o corpo em grego (myeloú / μυελού) descrito por Platão como capaz de produzir e acumular sêmen sendo responsáveis pelas graves doenças da alma devido aos prazeres excessivos (Costa; Siqueira – Batista e Schramm)

As relações entre patologias e emoções nas tradições grego - hipocráticas em muito se assemelham (no mínimo etimologicamente) a algumas das nossas concepções modernas de medicina psicossomática. O conceito de melancolia (gr. melancholía) por exemplo foi retomado por Freud (1917) e a descrição em aforismo ainda lhe é precisa ..."se o medo ou a tristeza duram muito tempo, tal estado é próprio da melancolia"... As noções de paranoia (do grego para ao lado de, fora; e noia - de si) enquanto delírio associado à febre, e cólera (gr. chólera) enquanto agressão, ira (raiva) e distúrbio específico de um tipo constitucional de personalidade, requerem estudos mais específicos e extensos do que a simples descrição da emoção e seu contexto eliciador ou oposto (comportamento de auto-controle) como Epicuro e outros filósofos procederam.

Assim sendo embora Epicuro não apresente nexos de causalidade entre emoções e patologia e/ou especulações quanto a sua fisiologia, as descreve com exatidão sendo equivalentes ao que temos interpretado nas medicinas antigas (semítica e chinesa) que analisamos, e ao que denominamos hoje como prescrições de uma medicina comportamental como pode constatar nas máximas e provérbios que aqui se seguem:

Viver de acordo com a Natureza (phúsis/ physis - φύσις)

Se não executares sempre as tuas ações de acordo com a finalidade ordenada pela natureza, mas lhes deres anteriormente uma outra direção, elas não estarão concordando com o teu pensar racional, quer se trate de abstenções, quer de desejos (anseios).

Todos os desejos que não trazem consigo alguma dor, quando insatisfeitos, não pertencem àqueles cuja necessidade é incondicional. A ânsia neles contida desvanece rapidamente, quando se evidencia que não podem ser realizados ou até que podem ocasionar danos.

Raiva (怒 nù)

A divindade não conhece castigos, nem os transfere para outro ser, dela não fazem parte os sentimentos de ira e benevolência.

O homem sereno procura serenidade para si e para os outros.

Na discussão, o vencido obtém maior proveito, pois aprende o que ainda não sabia.

Quanto à sensação de segurança perante os homens, o poder e o domínio são bens dados pela natureza, a partir dos quais podemos proporcionar-nos segurança.

Alegria (喜 xǐ)

As pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo.

O prazer não é um mal em si; mas certos prazeres trazem mais dor do que felicidade.

O desejo é a causa de todos os males.

Não podemos viver felizes se não formos justos, sensatos e bons; e não podemos ser justos, sensatos e bons sem sermos felizes.

O prazer é o primeiro dos bens. É a ausência de dor no corpo (aponia) e de inquietação na alma (ataraxia).

O apogeu do prazer será alcançado quando todas as dores forem eliminadas. Pois onde entrou o prazer não existem, enquanto ele reinar, nem dores nem padecimentos, ou até ambos.

Ansiedade (忧 yōu) / Medo (恐 kǒng)

A vida do justo é tranqüila, enquanto a do injusto perturbada por inquietações.

Somente o justo desfruta de paz de espírito.

Pelo medo de ter de se contentar com pouco, a maioria dos homens se deixa levar a actos que aumentam mais ainda esse medo.

Se aquilo que ocasiona prazer aos libertos eliminasse os receios do espírito, dos fenômenos da natureza, da morte e das dores, e se ainda ensinasse o conhecimento da limitação das ânsias, nada teríamos a desaprovar nessas pessoas.

Não se pode não ter medo quando se inspira o medo.

Aquele que conhece os limites da existência sabe do que pode obter para eliminar a dor das privações, não tem desejos nem se empenha em lutas vãs.

Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades.

Preocupação (ficar pensativo 想 - si)

A propósito de cada desejo deve-se colocar a questão: 'Que vantagem resultará se eu não o satisfizer ?'.

Só há um caminho para a felicidade. Não nos preocuparmos com coisas que ultrapassam o poder da nossa vontade.

Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou, ou que já passou a hora de ser feliz. ...

... Medita, pois, todas essas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens.

Para concluir

Em uma perspectiva temporal tranquilamente pode-se atribuir ao Rei Salomão ou medicina semítica (900 a.C.), a precisão na descrição da relação entre emoções, comportamento e processo saúde - doença das tradições chinesas do Livro do Imperador Amarelo (200 a.C. - 200), e conhecimento galênico - hipocrático epicurista (406 aC. – 217) de origem da nossa medicina, mas difícil é estabelecer as rotas geográfico – comerciais destes contatos.

Por outro lado há diferenças extremas, tal como as concepções de eutanásia na própria Grécia antiga onde foi defendida por Platão e Epicuro e condenada por Hipócrates e Aristóteles, e diferenças complexas tais como as concepções de cérebro, alma, espírito.

O essencial desta proposição é o registro do valor isolado de cada um destes sistemas descritivos, talvez só compreensíveis assim, e seu valor enquanto formas semiótico operacionais (míticas) de controle do comportamento e intervenção no processo saúde doença. A pergunta que fica é se estamos diante de uma recorrência universal de valores lógicos e éticos ou como nos diz Lévi-Strauss, apenas ignoramos os aspectos morfológicos, estatísticos e sobretudo históricos dos grupos que elaboraram os referidos sistemas culturais.

Bibliografia

Epicuro (Ἐπίκουρος)

1 Teses fundamentais, aforismos da biografia de Diógenes Laércio. in Epicuro. Pensamentos. SP, Martin Claret, 2005

2 Epicuro Exortações; Frases escolhidas http://www.citador.pt/frases/citacoes/a/epicuro

3 Epicurus. Vatican Sayings translated by Peter Saint-Andre (2010) http://www.monadnock.net/epicurus/vatican-sayings.html

CAIRUS, Henrique. A fisiologia do espírito na Grécia Antiga. Calíope, PPGLC-UFRJ, 2006 http://www.letras.ufrj.br/proaera/afisiologia.pdf

COSTA, Paulo Pedro P. R. O "mar de dentro" um estudo da concepção de cérebro, mente e espírito no sistema etnomédico chinês que teve como orientador: Jurecê Jorge Machado BA, Mimeo, Fevereiro de 2003). (Resumo: http://etnomedicina.blogspot.com.br/2009/09/o-sistema-etnomedico-chines.html)

COSTA, Paulo Pedro P. R. Aforismos antigos, provérbios e conselhos para manutenção da saúde na tradição e medicina semítica. Fevereiro de 2014 https://pt.scribd.com/costapppr

COSTA, Paulo Pedro P. R. Aforismos antigos, provérbios e conselhos para manutenção da saúde na tradição e medicina hipocrática. Abril de 2015 https://pt.scribd.com/costapppr

DETIENNE, Marcel. Os gregos e nós: uma antropologia comparada da Grécia Antiga. Tradução de Mariana Paolozzi Sérvulo da Cunha. São Paulo: Loyola.

FREUD, S. Luto e melancolia (1917). In: ______. Sigmund Freud Obras Completas. Vol. 12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

GOLDIM, José Roberto, Breve Histórico da Eutanásia. Eutanásia Bioética 1997-2000 http://www.ufrgs.br/bioetica/euthist.htm Acesso Maio, 2015

GUIMARÃES, José Otávio Nogueira. Origens da antropologia da grécia antiga: Lévi-Strauss, Vernant e duas viagens de 1935 . Revista de História, Brasil, p. 39-50, jun. 2010. ISSN 2316-9141. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/19135/21198>. Acesso em: 05 Mai. 2015.

LEVI-STRAUSS, Claude A oleira ciumenta. Lisboa, PT. Edições 70, 1987

MARQUES, Marcelo P.. O conceito grego de natureza. Kriterion, Belo Horizonte , v. 48, n. 116, p. 505-509, Dec. 2007 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-512X2007000200017&lng=en&nrm=iso>. access on 05 May 2015.

REBOLLO, Regina Andrés. O legado hipocrático e sua fortuna no período greco-romano: de Cós a Galeno .Scientiae Studia, [S.l.], v. 4, n. 1, p. 45-81, mar. 2006. ISSN 2316-8994. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/ss/article/view/11067>. Acesso em: 05 Mai. 2015.

SIQUEIRA-BATISTA, R. e SCHRAMM, F. R.: Platão e a medicina. História, Ciências, Saúde. Manguinhos, vol. 11(3): 619-34, set.-dez. 2004.



domingo, 12 de abril de 2015

Acupuntura, chakras e a unidade da Ásia


O livro “Acupuntura e o sistema de energia dos chakras” de John R. Cross compara as abordagens da medicina tradicional chinesa e a acupuntura ocidental moderna com o sistema de energia dos chakras relacionado à filosofia ayurvédica. As dificuldades desta complexa comparação são superadas explorando, não a origem asiática dos sistemas etnomédicos enunciados, e sim sua relação com a prática clínica descrita segundo o paradigma científico, no qual se insere a medicina cosmopolita moderna com sua precisa descrição de patologias, plexos nervosos, glândulas e hormônios.

Uma forma lógica de compreender tais sistemas etnomédicos seria a abordagem histórico antropológica que se depara com a complexidade das interações entre tais povos ao longo dos milhares de anos de sua formação e contato, mas aparentemente interessa a Cross sobretudo, a sobrevivência enquanto conhecimento (um sistema semiótico) e prática médica (conhecimento empírico). Contudo não há como negar a demanda por uma abordagem simultaneamente sincrônica e diacrônica que este tema nos exige, sendo o sincrônico o aspecto estático estrutural do sistema e diacrônico tudo que diz respeito à sua evolução.

Por outro lado uma análise superficial da evolução desta medicina tradicional oriental sem dúvida se depara com dois centros ou conjuntos de crenças e práticas, que por sua vez poderiam ser subdivididos até a sua origem na civilização original, e se constituem no que hoje conhecemos e praticamos no ocidente como yoga/ medicina ayurvédica e acupuntura / medicina tradicional chinesa, apesar da diversidade sócio-cultural política e econômica dos cerca de 50 países que formam a Ásia no início do século XXI.

Este enigmático continente, aos olhos dos europeus e colonizados tem em comum a origem da civilização e se caracteriza como uma representação nossa do exótico oriente. A adoção de costumes e especiarias orientais não é nenhuma novidade para os ocidentais.

O estudo sobre a origem da civilização ocidental, a rigor não pode negar sua antiguidade oriental e relação com a China e Índia, o que se insere na perspectiva de uma análise na ótica da antropologia das civilizações letradas, e dispersão dos míticos indo-europeus unificados pelos romanos e cristãos em conflito com a expansão árabe e proposição do Islã. Fomos unificados pelo comércio (mercantismo), ciência (renascentista) e capitalismo industrial. O que se verifica numa perspectiva da moderna economia política que tenta decifrar os destinos das revoluções socialistas da Rússia e China e os divergentes Tigres Asiáticos (Cingapura, Taiwan, Hong Kong e Coréia do Sul - modelados pelo Japão?) como cenário do atual paradigma científico na Ásia (e no mundo moderno).

O desafio é analisar o maior dos continentes, do qual fazem parte mínimo metade da população do mundo e que conta atualmente 2.000 línguas, mas pode-se pensar numa unidade da Ásia por esses povos possuírem além de uma origem comum, muitos costumes semelhantes. Alguns possivelmente induzidos pelas grandes religiões (islamismo, hinduísmo, budismo, taoísmo, xintoísmo etc.) e entre estes costumes, de longe, se destaca a medicina tradicional.

São por demais conhecidas as semelhanças entre os conceitos da energia regulada por relações análogas as observadas entre os elementos da natureza água, fogo, terra, ar, éter (Índia) ou madeira (China) e desconhecidas as rotas de contato e dispersão entre culturas tão díspares como as Grécia, Índia e China.

Além do uso de plantas medicinais que se tornaram medicamentos ou ainda são consumidas in natura a própria acupuntura e yoga foram reintroduzidos na cultura ocidental com ampla dispersão no século XX. Tais sistemas, entretanto, foram mantidos em “compartimentos” estanques” apesar da origem comum e semelhança conceitual já demonstrada por muitos autores notavelmente Madel Luz (1988), Gabriel Stux (1994) e Svoboda, R. & Lade, A. (1998).

O livro de John R. Cross (2008) “Acupuntura e o sistema de energia dos chakras tratando a causa das doenças” recentemente traduzido (Lucimeire Sant’Anna) e lançado no Brasil (Editora Manole, 2010) corresponde a uma tese de doutorado apresentado a Britsh College of Acupuncture, em 1987, com o título de “O uso da acupuntura relacionado ao sistema de energia dos chakras” e essencialmente se constitui como um manual prático para quem já conhece e pratica arte médica da acupuntura e tem conhecimento das técnicas de meditação yogue.

Enquanto tese de doutorado, com se sabe, procede de uma cuidadosa revisão dos textos teóricos de tais práticas já utilizados no ocidente e países de língua inglesa. Seu autor, John R. Cross mora na Ilha de Skye (Escócia) prática e ensina medicina ortodoxa, tradicional (fisioterapia) e complementar há quase 40 anos. Entre seus interesses está o estudo da dor e doenças musculoesqueléticas.

Sua linha de interpretação da prática clínica que exerce, se insere nitidamente no plano das comparações de tais técnicas com a reflexoterapia e controle/estimulação do sistema nervoso autônomo, observando a clássica correlação dos chakras com glândulas do sistema endócrino e emoções, entendidas mais como sentimentos acessíveis aos relatos verbais que comportamentos.


Explora simultaneamente, embora brevemente, as concepções e possibilidades de interpretação espiritual enquanto aura ou energia etérea/eletromagnética e a intervenção biomagnética nas distintas regiões do corpo denominadas chakras na tradição indiana, com respectiva correspondência aos pontos de acupuntura. Com excelentes ilustrações, é por excelência uma recomendação que não se fundamenta apenas no exercício clínico, mas também na interpretação de tradições milenares tomadas como parâmetro, organizadas na forma de prescrições de fácil verificação, em uma forma de prática clínica que paulatinamente vem se consolidando na medicina cosmopolita ocidental.

Referências

Luz, Madel T. Natural, Racional, Social ; Razão Médica e Racionalidade Científica Moderna, Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1988

Svoboda, Robert; Lade, Arnie. Tao e Dharma, medicina chinesa e ayurveda. SP, Pensamento, 1998

Stux, Gabriel, Chakra acupuncture. Medical Acupuncture, 1994 Volume6 / Número 1

Said, Edward W. Orientalismo. O Oriente como invenção do Ocidente. SP, Companhia de Bolso, 2007

Ver também

Acupuncture and the Chakra Energy System: Treating the Cause of Disease
John R. Cross Google Books

John Cross Clinics & Publications
http://www.johncrossclinics.com

ACUPUNTURA DE CHAKRA
GABRIEL STUX, M.D. / Tradução: Paulo Pedro P.R. Costa


sexta-feira, 21 de março de 2014

Cérebro 腦,o mar de dentro 髓海

Uma busca de evidências da atribuição de funções ao órgão cérebro no sistema etnomédico chinês, semelhante as que a moderna neurociência ocidental considera como função do cérebro ou sistema nervoso, não pode deixar de avaliar as noções produzidas nos antigos escritos chineses. Consultamos para esse texto, basicamente o Ling Shu, comentado por Ming Wong (1995) e o Nei Jing (内經) - Livro do Imperador Amarelo comentado por Bing Wang.

Em chinês cérebro pode ser traduzido por Nǎo (脑) ou nos textos antigos Suǐ Hǎi - suǐ (髓 medula) hǎi (海 mar) onde a medula é a substância jīng (精 essência) que é produzida internamente pelo Canal de energia do Rim (腎- shèn). É descrito como um dos seis órgãos extraordinários mencionado na literatura clássica (Hiep, 1987) um dos quatro mares (Si Hai- 四海 ) segundo (Wong, 1995)

O Nei King se refere ao cérebro como o mar de medula, aonde literalmente (lat. medulla) significa interior, possivelmente também interpretada como referência não anatômica (parte de dentro, como adotamos nesse trabalho) ou mais exatamente (talvez) como uma observação sobre a quantidade de sua matéria constituinte - a substancia branca (mielina e outros constituintes básicos como fosfoglicerídeos, colesterol cerebrosídeos etc. de natureza lipídica e coloração próxima do branco presente em maior quantidade no interior do crânio). Assim, pode se interpretar o que se lê no capítulo 33 do Ling Shu: "os mares são os locais de reunião da medula, do sangue, da respiração ou energia, dos líquidos e dos alimentos.” (Wong, 1995) Os outros 3 mares são: o mar de Sangue (Xue); o mar de Respiração; o mar de líquidos e alimentos.

Para compreender a natureza dos mares (numa perspectiva êmica ou do entendimento de quem assim designou) temos que recorrer sem dúvidas aos textos antigos do diálogo entre Imperador Amarelo que perguntou ao seu ministro Qi Bai - ...O mestre une o homem ao céu e aos quatro mares. Qual a relação entre eles? Obtendo a seguinte resposta: ...- "é preciso compreender claramente o Yin e o Yang, o interno e o externo e a localização dos pontos Rong e Shu a fim de determinar os "quatro mares"...(Wong, 1995)

Sabe-se que os pontos Shu na acupuntura, correspondem a regiões onde se concentra energia, são sensíveis à palpação, e a dor local indica uma alteração no órgão correspondente. Os pontos Rong (Roé) correspondem a pontos especiais com funções específicas (Machado; Sussmann) Na tradução que utilizamos do Ling Shu de Ming Wong traduz-se entretanto Shu como ponto de transporte - usualmente grafados como Luo.

De qualquer forma o texto que corresponde a descrição dos pontos Rong e Shu do "mar da medula" dá margem a várias interpretações como pode ser visto nessa reprodução integral que se segue:

..."No cérebro acha-se o mar da medula seu ponto de transmissão, em cima está colocado sobre o Gai (tampa) ou ápice do crânio; em baixo sobre o Feng Fu (habitáculo do vento) o ponto nº16 do Vaso Governador"

Em termos de neurofisiologia a estimulação de VG20, Bǎi Huì (百會) o ponto do ápice da cabeça corresponde aos territórios do nervo trigêmeo (ramos supra - orbitário e auriculo-temporal respectivamente da divisão oftálmica e mandibular do V par craniano) e do nervo occipital maior, que contém fibras de nervo raquidiano do segundo nervo cervical - C2. Os ramos do occipital maior do 2 nervo cervical e terceiro ramo occipital do 3 nervo cervical inervam a pele na região de VG16 - Fēng Fǔ 風府.(Chen, 1997) Uma correspondência à estimulação dos núcleos da ponte e áreas associadas ao controle da respiração, postura, vômito e regulação orgânica no tronco cerebral, em tese, pode ser testada como efeito dessa estimulção(?).

Enquanto símbolo (integrante sistema coerente de conceitos etnomédicos) sobretudo o Bǎi Huì (百會 - cem reuniões ou encontro de todos) possui uma função similar ao chakra da flor de mil pétalas e temas que se repetem nas mitologias asiáticas representando a sede da compreensão, destinos do Kundalini ou das "medulas" (Jing Qi) através da portas e palácios do meridiano do Vaso Governador ou Du - 督脈 (assim são denominados alguns de seus pontos).

A conexão do "mar de medula" com pontos do vaso governador também nos permite estender a este "órgão" as mesmas funções do sistema da pequena circulação Yin - Yang (vaso da concepção - vaso governador). Contudo como a medicina tradicional chinesa baseia-se na observação empírica, não poderia deixar de existir uma “clara” descrição de sua função verificada em afecções típicas como as que se seguem:

Lê-se no Ling Shu: ..." o mar da medula em excesso significa um relaxamento muscular que ultrapassa a medida"... O que pode muito bem ser referências ao coma, estupor ou paralisia flácida numa escala de gradações do relaxamento e ..."o mar de medula em insuficiência provoca zumbidos de ouvidos com atordoamento do cérebro. (vertigens). Observa-se dores intensas nas pernas, vertigens e perturbações na vista. O relaxamento incita ao sono"...

Também não é por acaso que o tratamento de acupuntura que utiliza os referidos pontos (VG20, VG16) destina-se a afecções neuropsiquiátricas (esquizofrenia, comportamento maníaco, depressão) manifestações neurológicas (apoplexia, afasia, hemiplegia, convulsão, falta de memória, cefaléia, tontura, tinnitus, obscurecimento da visão) e psicossomáticas (rigidez do pescoço, palpitação, prolapsos do reto e útero, febre) (Livro dos 4 Institutos; Machado)

Como todos os “órgãos” classificados na medicina tradicional chinesa como Fu (腑) (ID; VB; E; IG; B; SJ e Útero) o cérebro tem a função de receber, absorver (digerir), transmitir (excretar) opondo-se a função de armazenamento, produção de substancias essenciais dos órgãos Zàng (脏) o que também reforça a idéia deste como elemento de adaptação, conexão, também enunciada no Nei-ching e Su-Wen ao afirmar que o cérebro (mar de medula) articula as relações entre o Jing (energia ancestral que vem dos rins) e o Shén (神) a energia comandada pelo coração. (Livro dos 4 Institutos).

Sem pretender adentrar nas discussões filosóficas que cogitam a possibilidade do cérebro conhecer a si mesmo, reforçando a necessidade de modelos analógicos, metafóricos, é notável a semelhança da concepção chinesa com os modelos da neurofisiologia russa (pavloviana) especialmente quanto a ser esse órgão um elemento de conexão interior - exterior, observando-se porém que as origens e sistemas de referência conceituais desse (órgão / símbolo) são indiscutivelmente distintos. Interessante também é a recomendação do Imperador Amarelo quanto ao método de "observar-se" e conhecer o shen - a mente o espírito, que comanda o hsing (corpo) no Nei Jing (内經)

"O shen não pode ser escutado com o ouvido, o olho deve ser brilhante de percepção e o coração deve ser aberto e atento para que o espírito se revele subitamente através da própria consciência de cada um. Não se pode exprimir pela boca; só o coração sabe exprimir tudo quanto pode ser observado. Se presta muita atenção, pode-se ficar a saber subitamente, mas também pode-se perder de repente esse saber. Mas shen, o espírito, torna-se claro para o homem como se o vento tivesse varrido as nuvens. Por isso se fala dele como do espírito."

Observe-se também a semelhança com as técnicas de meditação e auto observação que, como comenta Eliade, conduziu a China ao desenvolvimento de uma psicologia que reconhece pelo menos 4 estados de consciência: a diurna; a dos sonhos; a do sono sem sonhos; e a "cataléptica" correspondente à “viagem à origem das coisas” (um estado completamente inerte sem aparência de ser vivo); experimentadas racionalmente após exercícios respiratórios e de atenção que permitem o acesso lúcido a cada um desses estados.

Sem as medidas do eletroencefalograma, somente possíveis em meados do século XX, os antigos chineses identificaram e possuíam propostas de intervenção nos fenômenos bio-elétricos atualmente mapeados por esse aparelho, inclusive dos estados de anestesia (ondas teta e delta), não mencionados por Eliade mas conhecido por faquires e acupunturistas. Exercícios de meditação relativamente semelhantes ao que conhecemos como técnicas de treinamento autógeno são conhecidos e amplamente divulgados com dezenas de variações em escolas indianas, chinesas e tibetanas principalmente.

As técnicas de exploração da consciência – o conceito básico e essencial para compreensão da neurofisiologia e algumas práticas clínicas derivadas (neuropsicologia, neuropsiquiatria, psiconeuroimunoendocrinologia, etc.) também aproximam a medicina tradicional chinesa das demais medicinas orientais e das proposições terapêuticas da reflexologia. O mesmo pode ser dito do conceito de “atenção”.

Destaque-se porém que o princípio de se obter conhecimento a partir da introspecção pode ser a diferença essencial que talvez explique a natureza da intuição que orientou a série de descobertas e domínio de funções cerebrais como nos exemplos citados, nas técnicas de controle da mente e comportamento.

Não se pode esquecer também que a etnomedicina asiática identificou diversas substancias psicoativas a exemplo das utilizadas na medicina tradicional chinesa tipo: o Ma Huang (Efedra sinica), Pa-Kuo (Ginkgo biloba), Da-ma (Cannabis sativa); Ginseng (Panax de várias espécies), Jie Cao (Valeriana officinalis), as plantas absorvidas da Índia como a Papoula (Papaver somniferum) e o lendário soma da medicina védica, interpretado por Levi Strauss (1993) como sendo o cogumelo Amanita muscaria.

Deixando fora tanto o uso compostos psicoativos asiáticos e os princípios que nortearam os experimentos empíricos que resultaram na acupuntura (segundo Carneiro, 2000, uma técnica de neuromodulação capaz de intervir na regulação orgânica) para compreender a noção de cérebro na medicina chinesa é essencial compreender a sua própria noção (êmica) de Conhecimento e Sabedoria.

Alguns exemplos poderiam ser escolhidos de Lao Tsé, Confúcio ou do próprio Imperador Amarelo mas, esse achado do Bardo Todol (Livro III) em forma de preceito traduzido da língua sino-tibetana pode ilustrar a noção de conhecimento que utilizam:

"A melhor coisa para a inteligência inferior é ter fé na lei de causa - efeito.
A melhor coisa para uma inteligência comum é reconhecer nela, bem como fora dela, o jogo da lei dos opostos.
A melhor coisa para uma inteligência superior é ter plena compreensão que não se separa do conhecedor, do objeto do conhecimento e do ato de conhecer
."

Abismo conceitual

A aproximação entre uma teoria sobre a mecanismos de ação da acupuntura e fisiologia do sistema nervoso depara-se ainda com a ausência de um consenso no próprio ocidente, entre as teorias ou mecanismos de explicação neuropsicológica e mesmo fisiológica do cérebro.

A integração de distintos sistemas teóricos como por exemplo psicanálise - reflexologia; reflexologia - behaviorismo (medicina comportamental) ou entre a concepção de um cérebro réptil no modelo triúnico de Paul MacLean e os modelos funcionais de Luria / Anokhin (unidades de regulação de tonus e vigília - recepção armazenagem de informações - programação, verificação de atividades) ainda vai exigir considerável esforço e tempo, quanto mais uma integração entre sistemas teóricos concebidos em princípios cognitivos de culturas distintas.

O conhecimento oriental do cérebro e suas funções

A noção antropológica de “invariante biológico” seja uma estrutura anatômica e sobretudo sua função (fisiológica), apesar das críticas dos etnógrafos quanto a sua aplicação e poder explicativo das normas culturais e crenças específicas, ainda é uma perspectiva segura de se comparar aspectos específicos dos sistemas etnomédicos.

Levi Strauss manifesta-se sobre a especificidade do biológico com a noção de zoema, ao comparar mitos sobre animais, segundo ele, essa classe especial de mitema ou elemento utilizado na construção dos significados do mito. Para ele um zoema corresponde a espécies de animais com uma função semântica que lhes permite manter invariantes a forma de suas operações no espaço em que, a geologia, o clima, a fauna e a flora, não são os mesmos" (Levi - Strauss, 1985).

O cérebro apesar de sua plasticidade, é sem dúvida um invariante biológico e talvez possa ser um elemento de comparação entre etnosistemas que privilegiem formas de intervenção equivalente à nossa neurociência e especialidades profissionais. (anestesistas, neurologistas, psiquiatras, psicólogos, fisioterapeutas etc.). Espero com essa descrição chinesa do “mar de dentro” ter contribuído para o entendimento do cérebro como um mitema ou elemento utilizado na construção de significados em distintas culturas e que essa utilização torne mais compreensível para nós as estranha concepções de chakras, meridianos, prana, qi, energia vital etc. aperfeiçoando a clínica.

Referências

Bardo Todol, O livro tibetano dos mortos. tradução Pugliesi, M. SP, Madras, 2003

Carneiro, Norton Moritz. Acupuntura baseada em evidências. Florianópolis, SC, Ed. do autor, 2000

Chen, Eachou. Anatomia topográfica dos pontos de acupuntura. SP, Roca, 1997

Eliade Mircea História das crenças e idéias religiosas Tomo II Vol I RJ, Ed Zahar, 1983

Hiep Nguyen Duc. The dictionary of acupuncture & moxibustion, a pratical guide to traditional chinese medicine.UK, Thorsons Publishers, 1987

Levi-Strauss, C. A Natureza do Pensamento Mítico, IN: A Oleira Ciumenta São Paulo, Ed Brasiliense, 1987

Lévi-Strauss, Claude. Os cogumelos na cultura. in: Lévi-Strauss, Claude. Antropologia estrutural dois. RJ, Tempo Brasileiro, 1993

Livro dos 4 Institutos – Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjig; Academia de Medicina Tradicional Chinesa. Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa. SP, Ed. Ícone, 1995

Machado, Jurecê J. Curso Básico de Acupuntura. BA, Edição do Autor, 1993

Sussmann, David J. Que é a Acupuntura? RJ, Ed Record 1973

WANG, Bing. Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo (Dinastia Tang – Edição bilíngue). São Paulo. Editora Ícone. 2001

Wong, Ming. Ling Shu, base da acupuntura tradicional chinesa. SP, Andrei, 1995


Ver também

Dian Kuang - 癫狂
http://etnomedicina.blogspot.com.br/2011/09/dian-kuang.html

O SISTEMA ETNOMÉDICO CHINÊS
http://etnomedicina.blogspot.com.br/2009/09/o-sistema-etnomedico-chines.html

Versão do presente texto em PDF para impressão:
http://pt.scribd.com/doc/213796591/Cerebro-o-mar-de-dentro

Poster (PDF) https://pt.scribd.com/doc/313374914/O-Mar-de-Dentro

Outra versão deste texto:

https://pt.scribd.com/doc/313669899/O-Cerebro-ou-o-mar-de-dentro-um-mitema

https://www.academia.edu/25582489/O_C%C3%A9rebro_ou_o_mar_de_dentro_um_mitema

Pesquisa (iconografia) disponível no facebook