quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A criação de Pan Gu

盘古开天辟地



 No princípio havia o não-ser, a insondável nuvem sem forma. O céu e a terra estavam em um mesmo e único não - lugar. Assim como tudo, não tinham nome, pode-se dizer que o que existia era o caos,  混 乱 o ovo cósmico 盘古, Tai Chi , a grande energia,  o  Tao.

O Tao em seu movimento gerou o Um. O Um gerou o Dois. O Dois gera o três e logo depois toda a escuridão. O ser que existia, então, toma a forma de um homem chamado Pan Gu 盘古. O trabalho desse homem é separar o leve, rosa-claro e brilhante (Yang ), do denso, escuro e pesado (Yin  ). Assim, Pan Gu começou a separar o céu da terra.

Para fazer seu trabalho, Pan Gu crescia empurrando o céu 天空 com a sua cabeça, pisando no chão com os seus pés. Esse esforço foi a sua vida .

Exaurido, deitou-se sobre si mesmo formando a terra; seu olho esquerdo brilhou e nasceu o Sol e, do olho direito nasceu a Lua 月亮. Seu fôlego expandiu-se em forma de vento e sua voz ressoou em trovão.

Dos seus pés e cabeça, formou-se o Himalaia e todas as outras cadeias de montanhas; de seus ossos e dentes espalhados pela água , ao secar formaram-se as minas e os metais . A medula branca, líquidos cristalinos e outras gorduras, junto com o sangue , ao separar-se originaram os rios e mares.

A sua pele , tendões, os seus pêlos e unhas transformaram-se na madeira , e o manto da vegetação foi cobrindo toda a terra, em sua primeira primavera. Os músculos pulsantes e artérias deram forma ao fogo dos vulcões e ao calor da terra envolvida em sua neblina com chuvas 雨.

No seu corpo, porém, havia pequenos seres que dele viviam, exatamente desses parasitas de energia formou-se o pequeno homem . Esse que povoou o mundo, junto com todos os dez mil seres que, sucessivamente foram nascendo uns dos outros feito a madeira que se incendeia em fogo, gera a terra, onde está o metal que cava a água que alimenta a madeira.

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Referências

Abreu, Antonio D. (Editor). Mitologia chinesa [Mitologia Primitiva], Quatro mil anos de história através das lendas e dos mitos chineses. SP: Landy, 2000

Pangu Separates the Sky from the Earth http://www.chinavista.com (2003)


Pan Gu, Chinese mythology.  Britannica.com https://www.britannica.com/topic/Pan-Gu (2017)

Ilustr. Arthur Lidov’s Medical Landscapes

Adapatação do mito: Costa, Paulo Pedro P. R. publicado originalmente
Verbo, poemas. BA: HarpDan; FazCultura, 2003

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Resenha: A Histeria de Katharina de Freud Tratada com Acupuntura



Este livro de 224 páginas, que paradoxalmente aborda um caso clínico de “histeria” na ótica ocidental e oriental, abrange um verdadeiro abismo conceitual entre dois universos de teorias e tradições, uma patologia já descrita na medicina hipocrática associada ao útero (do grego: “hystera” que em chinês é 子宫 Zǐgōng - palácio da criança) e uma patologia identificada na medicina tradicional chinesa e/ou incluída como tratável com acupuntura.

Por outro lado é surpreendente como Vicente Zaffarani Neto e Ednéa Iara Souza Martins conseguiram executar esta tarefa, evidenciando mais uma vez o valor dos modelos abstratos (teórico-científicos ou míticos- tradicionais) para delimitar um fenômeno ou transtorno (um distúrbio mental neste caso) discriminando suas nuances e variações com suas ferramentas conceituais para classificação e intervenção clínica.



A patologia em questão é descrita em chinês com os ideogramas 歇斯底里 (xiē, sī, dǐ, lǐ) traduzido para línguas ocidentais e vocabulário médico atual como “histeria” onde literalmente: xiē 歇: significa ir para a cama, descansar, nocautear; sī 斯 : é o pronome “este”, “esta”; 底 dǐ: traduzível por “inferior” ou “fundus” (latim para "fundo") um termo anatômico que se refere à parte de uma concavidade em qualquer órgão, que está na extremidade distante de sua abertura; e finalmente lǐ 里: interior, forro revestimento, vizinhança, local onde se vive.

Os ideogramas que designam a “histeria” podem ter sido adotados desde sua incorporação à medicina chinesa após a revolução cultural, já fazem parte da relação de patologia incluídas no Livro dos Quatro institutos patrocinado pelo Ministério da Saúde Pública da República Popular da China publicado em 1964. Contudo esta patologia não foi incluída na Lista com as indicações da Organização Mundial de Saúde (OMS ) para a acupuntura de 1979. Nessa lista estão doenças para as quais se tem comprovação científica da eficiência do tratamento, mas não são necessariamente as únicas doenças tratáveis pela acupuntura.

É possível ainda, que esta patologia já tenha sido estudada pelos médicos chineses que entraram em contato com as concepções da medicina hipocrática como nos mostrou os estudos do sinólogo Joseph Needham (1900 -1995) sobre a similaridade entre os conteúdos do "Livro do Imperador Amarelo" com o Corpus Hippocraticum (460 – 379 a.C.) - conjunto de textos atribuído a Hipócrates, ou os registros de contato entre tais civilizações através da "rota da seda". (Needham; Carneiro)

O conceito de histeria possui uma longa história e trajetória desde sua origem na medicina grega, incorporação à medicina ocidental cosmopolita e psicopatologia. Foi revisto por Sigmund Freud (1856-1939) em finais do século XIX, (como abordado no livro) ainda persiste na psicologia e psiquiatria dos nossos dias com o CID F44 - transtornos dissociativos (ou conversivos), a histeria de conversão com dez subcategorias (da F44.0 a F44.9) e F41.8 a histeria de ansiedade.

O próprio Freud modificou suas concepções e forma de tratamento da histeria ao longo de sua carreira de acadêmico e médico clínico, do uso da hipnose à “livre associação” e “interpretação dos sonhos” (a psicanálise); da etiologia desta neurose na sedução (ou abuso por adultos) à dissolução do “complexo de Édipo” e fantasias inconscientes. Nos legou um sofisticado modelo de interação entre a mente, o cérebro (o aparelho psíquico) e o corpo – o seu “Projeto para uma Psicologia Científica” (1950 [1895]) onde dedicou um capítulo especial à psicopatologia e à “formação simbólica” e “intensidade das ideias” na histeria.



O livro “A Histeria de Katharina de Freud Tratada com Acupuntura“ escrito por dois especialistas em acupuntura, o Vicente Zaffarani Neto, também psicólogo com especialização em psicanálise e Ednéa Iara Souza Martins autora dos Atlas dos Pontos de Acupuntura (Ed Roca, 2011), especialista em acupuntura pelo Conselho Regional de Odontologia, nos apresenta uma cuidadosa revisão destes dois momentos ou aspectos desta síndrome.

Está subdividido em 9 capítulos a saber:

1 - A Medicina Tradicional Chinesa na Era Científica
2 - A Katharina de Freud
3 - "Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos”: Comunicação Preliminar (1893)
4 - O Significado das Emoções
5 - Etiopatogenia na Medicina Tradicional Chinesa
6 - Função Psíquica na Medicina Tradicional Chinesa
7 - Etiologia e Patogênese das Doenças Psíquicas na Medicina Tradicional Chinesa
8 - Classificação das Doenças Mentais na Medicina Tradicional Chinesa
9 - A Histeria de Katharina na Medicina Tradicional Chinesa

Os autores em sua cuidadosa revisão dedicam pelo menos três capítulos a análise do modelo freudiano de descrição/intervenção na histeria e modernas concepções sobre a psicofisiologia (na concepção ocidental) das emoções além de procederem uma cuidadosa revisão das concepções da medicina tradicional chinesa sobre as doenças mentais e particularmente sobre a histeria, como era de se esperar.

A classificação das doenças mentais descritas aqui corresponde ao apresentado no livro Tratamento das Doenças Mentais por Acupuntura e Moxabustão, de Ye Chenggu, publicado e traduzido em Pequim, o que diminui as chances de erros de tradução e interpretação. Na visão da medicina tradicional chinesa adotada por Zaffarani Neto & Martins além da histeria, entre as doenças mentais incluem ou destacam-se, principalmente:

• Palpitação e estupor.
• Insônia.
• Sonolência.
• Amnésia.
• Síndrome de bentun.
• Depressão.
• Síndrome de síncope.
• Esquizofrenia (depressiva e maníaca).
• Epilepsia.

Na medicina Tradicional Chinesa histeria é comumente definida como um distúrbio mental provocado pelo fogo, resultante da repressão das emoções e frustração (Livro dos 4 institutos; Xi Wenbu). A revisão realizada por Zaffarani Neto & Martins, não foge a este consenso de associação à desejos insatisfeitos e excessos emocionais, reconhece porém a complexidade das manifestações dos sintomas e demanda de distinguir a histeria das síndromes zang zao (agitação visceral, depressão, histeria); meihe (globus hystericus); melancolia; depressão e síncope.

Assinala ainda que etiologicamente pelo menos três condições “energéticas” (na concepção da medicina chinesa) podem ser identificadas e utilizadas como critério de escolha de pontos para acupuntura associados: a deterioração do “qi” (chi) do coração; a “estagnação do qi do fígado transformando-se em fogo ascendente” ; a “estagnação do qi do fígado prejudicando a função do baço (meridiano do baço-pâncreas).

Destaca as citações do Ling Shu, referentes ao equilíbrio entre o corpo a mente e o shen (o jing, o chi e o shen). Detém-se nas dificuldades e possibilidades de traduzir o Shen, espírito, consciência, energia do coração – o órgão meridiano diretamente relacionado à patologia em questão – o coração é o órgão que alberga o shen, as doenças do coração pertencem ao campo mental. Do Ling Shu, por exemplo, nos revela que no capítulo 2, se lê: "As inquietações e as infelicidades estorvam a circulação do qi.A raiva excessiva extravia. É incontrolável. O temor excessivo dispersa a mente"

No caso da histeria evidencia-se a formas como fatores patogênicos internos explicam os efeitos nocivos sobre os órgãos das emoções excessivas tanto em quantidade, como em qualidade. Apesar de enfatizar o tratamento com acupuntura ou a possibilidade de tratar o psiquismo atuando sobre os órgãos e vice-versa (o tratamento do órgão pode atuar de forma eficiente nos sintomas ou mesmo na emoção relativa ao padrão), não deixa de incluir nas recomendações ao tratamento desta patologia a necessidade de mudança de hábitos alimentares, aquisição ou desenvolvimento de técnicas e práticas de exercícios (a exemplo do chi kung, tai chi chuan e outros métodos) e sobretudo meditação, voltando-se ao shen – unificando o corpo psíquico e a mente em razão da inter-relação entre os órgãos e a atividade mental.

Sobre a mente consciência ou inteligência são frequentes a mostra de suas consultas à fontes tradicionais quando nos deparamos com a citação esclarecedora de que "A inteligência alimenta-se na vida. Deve ela estar de acordo com as 4 estações, adaptar-se ao frio e ao calor, à alegria e à raiva; situar-se na calma, a fim de harmonizar o yin e o yang, aliar força à doçura. Pode assim evitar doença e prolongar a vida'

Recuperando também para nós um “clássico” estudo ocidental, a definição de Soulié de Morant (1878-1955), para quem o o Shen:

"[...] é o plano superior, é o diretor psíquico da consciência e da compreensão, da razão, o juízo do sentido comum, a crítica; a consciência, a verdadeira inteligência; que compreende sem ter aprendido e por simples comparação utilizando algumas vezes a percepção do exterior no momento transformante e na memória do passado apartada pelo Roun (hun), para colocar de acordo com a captação, as reações hereditárias e adquiridas, e as possibilidades do real'".

Enfim, os autores desta análise de “histeria de Katharina de Freud” à luz da medicina tradicional chinesa estão de parabéns. Uma leitura essencial para antropólogos que pesquisam os textos clássicos de antigas civilizações ou "documentos etnológicos brutos" para nós ocidentais que utilizamos as ferramentas conceituais da antropologia estrutural na proposição de Lévi-Strauss.

Para este autor, o mito, nos fornece modelos que não diferem da ciência pelo gênero de operações mentais (relações de determinação ou classificação), e sim, pelas relações que estabelecem com a “percepção” (mais desenvolvida no pensamento científico) e “ a intuição sensível” (mais desenvolvida no mito - de certo modo semelhante a arte (bricolage), representando estratégias distintas do conhecimento humano (Lévi-Strauss. O pensamento selvagem, 1976).

Uma leitura essencial para neurocientistas ocupados com a integração de distintos sistemas teóricos como psicanálise - reflexologia; reflexologia - behaviorismo (medicina comportamental) ou entre a concepção de um cérebro reptil no modelo triúnico de Paul MacLean e os modelos funcionais de Luria / Anokhin etc.

Será possível uma integração entre sistemas teóricos concebidos em bases cognitivas distintas? A presente proposição baseou-se na perspectiva de que a observação de como é feita a descrição de um fenômeno patológico ou fisiológico em distintas concepções etnomédicas pode esclarecer as diferenças entre as distintas formas de explicação - intervenção em questão. Vale ver.

Referências

ZAFFARANI NETO, Vicente, MARTINS, Ednéa Iara Souza. A Histeria de Katharina de Freud Tratada com Acupuntura. SP: Roca, 2010 ISBN: 9788572418751

YE CHENGGU. Tratamento das doença mentais por acupuntura e moxabustão. SP: Roca, 2006

XI WENBU (Beijing, China) Tratado de Medicina Chinesa. SP: Roca, 1993

OMS / WHO Classificação de Transtornos mentais e de Comportamento da CID-lO: Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas - Coord. Organizo Mund. da Saúde; trad. Dorgival Caetano. - Porto Alegre: Artmed, 1993.

NEEDHAM, J.; GWEI-DJEN, L. Celestial Lancets: a history and rationale of acupuncture and moxa. UK, Cambridge University Press, 1980.

LING – SHU. Base da acupuntura da medicina tradicional chinesa. Tradução e comentários de Ming Wong. São Paulo. Andrei. 1995.

LÉVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem SP, Ed. Nacional, 1976

FREUD. SIGMUND. Publicações pré psicanalíticas e esboços inéditos. Edição Standard das Obras completas de Sigmund Freud. V. I / 24 v. (1886-1899). RJ, Imago, 1996

Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjig; Academia de Medicina Tradicional Chinesa. Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa (Livro dos 4 Institutos). SP, Ed. Ícone, 1995

CARNEIRO, Norton Moritz. Acupuntura baseada em evidências. Florianópolis, SC, Ed. do autor, 2000

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Women under Hysteria1876-1880
(Attitudes Passionnelles, Debut d'une Attaque; Hystéro-Épilepsie Attaque)
D.M. Bourneville and P. Régnard (montage by wikimedia commons)