terça-feira, 5 de maio de 2015

Aforismos antigos, provérbios e conselhos para controle das emoções e manutenção da saúde nas tradições das medicinas chinesa, grega e semítica.

Na pretensão de tornar comparável a medicina tradicional chinesa à nossa prática atual da acupuntura, estudando sua história, torna-se quase que impossível não observar as aparentes semelhanças entre seus conceitos e os da antiga medicina grega. Especialmente a relação entre as narrativas que tomam os elementos da natureza: o fogo (火), a terra (土), o metal (金) e a água (水) e madeira (木) e os quatro elementos descritos na antiga Grécia: fogo (πῦρ pur); terra (γῆ ge); ar (ἀήρ aer) e água (ὕδωρ hudor) relacionáveis à estações do ano.

Por outro lado sabe-se que a comparação de povos distintos é o maior desafio da etnologia. Não há dúvidas também que somente com as ferramentas da etnologia / antropologia-histórica é que se pode ter uma visão da sociedade grega como um todo, e suas complexas divisões entre cidades-estados ou povos de origem, como por exemplo, nesse caso, os Jônios (povo de origem de Hipocrátes e Epicuro), e sua distinção dos Eólios, Dórios e Aqueus, entre outros, especialmente para uma análise das tradições chinesas desde sua evolução até as nossa práticas atuais.

Comparando as tradições ocidentais com as da antiga China observou-se que o nexo estabelecido entre estações do ano e patologias é nitidamente explorado, como causa potencial, tanto na medicina tradicional grega como chinesa (ver artigo). O mesmo pode ser dito quanto a atribuição de importância às emoções no processo saúde-doença nas “sobrevivências” judaico cristãs das medicinas semíticas (ver artigo).

Estendendo um pouco mais a pretendida comparação de “incomparáveis” (segundo Detienne) analisa-se o conjunto emoções - conceito essencial para entender a lógica das doenças na medicina tradicional chinesa – descritos por Epicuro com muito maior riqueza de detalhes que Hipocrátes embora este último já as aproximasse das modernas concepções de causa de doença mental ou psicossomática.

Epicuro, assim como Aristóteles, foi um filósofo com grandes contribuições à compreensão da lógica, afetos e emoções humanas. A escolha da descrição das emoções por Epicuro representando a concepção grega, se deve não só a atualidade da sua concepção mas também da importância se atribui hoje ao prazer e alegria tomados aqui provisoriamente como sinônimos.

Epicuro de Samos (em grego antigo: Ἐπίκουρος, Epikouros, 341 a.C., Samos — 271 ou 270 a.C., Atenas) deixou seguidores especialmente na na Jônia, região da costa sudoeste da Anatólia, hoje na Turquia onde viveu Hipocrates e o seu discípulo médico, Asclepíades de Bitínia (129 a.C. - 40 a.C.).

A Bitínia corresponde a antiga região do noroeste da Ásia Menor (Anatólia), Asclepíades por volta do sec. I a.C. influenciado pelo atomismo de Epicuro, realizou um revisão crítica à obra de Hipocrates quando se discutia a perspectiva empírica e dogmática da arte médica. Segundo Rebollo embora tenha se autodenominado um dogmático, afastou-se tanto dos dogmáticos quanto dos empíricos, para ele o empirismo médico sem teoria era um contra-senso, e as teorias dos dogmáticos eram erradas e inadequadas, pois não consideravam os fatos relacionados com os diferentes estados de saúde e de doença ou perda da vitalidade.

A classificação das “máximas”, provérbios ou pensamentos de Epicuro selecionados por emoções, subdivididas em: Raiva (怒 nù); Alegria (喜 xǐ ); Preocupação (ficar pensativo 想 - si); Melancolia/ tristeza (melancolia / mágoa 悲 bēi); Ansiedade (忧 yōu) / Medo (恐 kǒng), correspondentes à classificação chinesa dos 5 elementos e estações do ano associadas às cinco emoções/sentimentos referidos se deve ao pretendido esquema de interpretação do Livro do Imperado Amarelo - Nei Jing (内經).

Quanto a Aristóteles apesar da sua contestação a localização Hipocrática das emoções e sentimentos no encéfalo, suas contribuições à natureza da lógica, mitos e racionalidade humana foram essenciais ao desenvolvimento da ciência. Inclusive a medicina ocidental que pelo menos até o século XVIII se fundamentou no legado hipocrático, que chegou até nós, pelas revisões de Galeno (129 - 217), à luz de Platão (428/427 - 348/347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) . (Rebollo)

Diagrama que ilustra o "sistema fisiológico" humano na concepção de Galeno segundo C. Singer; Claudius Galen; human physiology, 1925 (wikimedia commons / wellcome images)


Enkéfalo - εγκέφαλος / Suǐ Hǎi - suǐ (髓 medula) hǎi (mar)

Aristóteles considerava o cérebro um órgão frio cuja função era refrigerar o sangue quente que sai do coração e sobe a cabeça na forma de exalação. No cérebro, os vapores seriam então resfriados e condensados, descendo para o corpo na temperatura requerida para manutenção da vida (sem febre). Para ele o coração era a sede da alma racional e o cérebro o órgão da sensibilidade, do movimento e do pensamento, onde são formados os espíritos animais. O pneuma movido pelo pulmão (ar respirado e gases exalados) é o que é responsável pela inteligência e fonação, ao entrar pela boca, nariz. É através dos etmóides que penetra na cabeça onde sua parte “mais ativa” produz, no cérebro, a inteligência. (Rebollo; Cairus)

Nesse aspecto são enigmáticas também as semelhanças entre esta concepção das três almas descritas por Aristóteles e as explicações chinesas das energia vital e suas manifestações (五 神 - 5 Shen), enquanto: Zhi (desejo, aspiração, vontade) que possui uma relação com os meridianos ou funções vitais do rim e bexiga; Hun (clareza, alma etérea) corresponde aos meridianos do fígado e vesícula biliar; Shen (o espírito) que corresponde a um maior número de funções visto que representa quatro meridianos: o coração, o san jiao traduzido literalmente por tríplice aquecedor, o pericárdio também chamado circulação - sexualidade e o intestino delgado; Yi (intenção, desejo, repreensão) corresponde aos meridianos do estômago e baço pâncreas e Po (alma corpórea) corresponde aos meridianos do pulmão e intestino grosso. (Costa, 2003)

A concepção de cérebro na medicina chinesa situa-se relativamente mais próxima ao elemento da vitalidade e espírito animal” descrito por Aristóteles. O cérebro ou em chinês Nao (腦) ou Suí Hai (suǐ hǎi) é um dos órgãos extraordinários mencionado na literatura clássica como um dos quatro mares (Ling Shu) uma fonte (local de armazenamento) do Jing (Energia ancestral) formado pelos rins.

O Nei King se refere a este como o mar de dentro, do interior, numa palavra que usualmente é traduzida como medula (marrow), possivelmente também interpretada como referência não anatômica (parte de dentro/ grande quantidade). Notavelmente similar ao elemento de ligação da alma com o corpo em grego (myeloú / μυελού) descrito por Platão como capaz de produzir e acumular sêmen sendo responsáveis pelas graves doenças da alma devido aos prazeres excessivos (Costa; Siqueira – Batista e Schramm)

As relações entre patologias e emoções nas tradições grego - hipocráticas em muito se assemelham (no mínimo etimologicamente) a algumas das nossas concepções modernas de medicina psicossomática. O conceito de melancolia (gr. melancholía) por exemplo foi retomado por Freud (1917) e a descrição em aforismo ainda lhe é precisa ..."se o medo ou a tristeza duram muito tempo, tal estado é próprio da melancolia"... As noções de paranoia (do grego para ao lado de, fora; e noia - de si) enquanto delírio associado à febre, e cólera (gr. chólera) enquanto agressão, ira (raiva) e distúrbio específico de um tipo constitucional de personalidade, requerem estudos mais específicos e extensos do que a simples descrição da emoção e seu contexto eliciador ou oposto (comportamento de auto-controle) como Epicuro e outros filósofos procederam.

Assim sendo embora Epicuro não apresente nexos de causalidade entre emoções e patologia e/ou especulações quanto a sua fisiologia, as descreve com exatidão sendo equivalentes ao que temos interpretado nas medicinas antigas (semítica e chinesa) que analisamos, e ao que denominamos hoje como prescrições de uma medicina comportamental como pode constatar nas máximas e provérbios que aqui se seguem:

Viver de acordo com a Natureza (phúsis/ physis - φύσις)

Se não executares sempre as tuas ações de acordo com a finalidade ordenada pela natureza, mas lhes deres anteriormente uma outra direção, elas não estarão concordando com o teu pensar racional, quer se trate de abstenções, quer de desejos (anseios).

Todos os desejos que não trazem consigo alguma dor, quando insatisfeitos, não pertencem àqueles cuja necessidade é incondicional. A ânsia neles contida desvanece rapidamente, quando se evidencia que não podem ser realizados ou até que podem ocasionar danos.

Raiva (怒 nù)

A divindade não conhece castigos, nem os transfere para outro ser, dela não fazem parte os sentimentos de ira e benevolência.

O homem sereno procura serenidade para si e para os outros.

Na discussão, o vencido obtém maior proveito, pois aprende o que ainda não sabia.

Quanto à sensação de segurança perante os homens, o poder e o domínio são bens dados pela natureza, a partir dos quais podemos proporcionar-nos segurança.

Alegria (喜 xǐ)

As pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo.

O prazer não é um mal em si; mas certos prazeres trazem mais dor do que felicidade.

O desejo é a causa de todos os males.

Não podemos viver felizes se não formos justos, sensatos e bons; e não podemos ser justos, sensatos e bons sem sermos felizes.

O prazer é o primeiro dos bens. É a ausência de dor no corpo (aponia) e de inquietação na alma (ataraxia).

O apogeu do prazer será alcançado quando todas as dores forem eliminadas. Pois onde entrou o prazer não existem, enquanto ele reinar, nem dores nem padecimentos, ou até ambos.

Ansiedade (忧 yōu) / Medo (恐 kǒng)

A vida do justo é tranqüila, enquanto a do injusto perturbada por inquietações.

Somente o justo desfruta de paz de espírito.

Pelo medo de ter de se contentar com pouco, a maioria dos homens se deixa levar a actos que aumentam mais ainda esse medo.

Se aquilo que ocasiona prazer aos libertos eliminasse os receios do espírito, dos fenômenos da natureza, da morte e das dores, e se ainda ensinasse o conhecimento da limitação das ânsias, nada teríamos a desaprovar nessas pessoas.

Não se pode não ter medo quando se inspira o medo.

Aquele que conhece os limites da existência sabe do que pode obter para eliminar a dor das privações, não tem desejos nem se empenha em lutas vãs.

Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades.

Preocupação (ficar pensativo 想 - si)

A propósito de cada desejo deve-se colocar a questão: 'Que vantagem resultará se eu não o satisfizer ?'.

Só há um caminho para a felicidade. Não nos preocuparmos com coisas que ultrapassam o poder da nossa vontade.

Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou, ou que já passou a hora de ser feliz. ...

... Medita, pois, todas essas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens.

Para concluir

Em uma perspectiva temporal tranquilamente pode-se atribuir ao Rei Salomão ou medicina semítica (900 a.C.), a precisão na descrição da relação entre emoções, comportamento e processo saúde - doença das tradições chinesas do Livro do Imperador Amarelo (200 a.C. - 200), e conhecimento galênico - hipocrático epicurista (406 aC. – 217) de origem da nossa medicina, mas difícil é estabelecer as rotas geográfico – comerciais destes contatos.

Por outro lado há diferenças extremas, tal como as concepções de eutanásia na própria Grécia antiga onde foi defendida por Platão e Epicuro e condenada por Hipócrates e Aristóteles, e diferenças complexas tais como as concepções de cérebro, alma, espírito.

O essencial desta proposição é o registro do valor isolado de cada um destes sistemas descritivos, talvez só compreensíveis assim, e seu valor enquanto formas semiótico operacionais (míticas) de controle do comportamento e intervenção no processo saúde doença. A pergunta que fica é se estamos diante de uma recorrência universal de valores lógicos e éticos ou como nos diz Lévi-Strauss, apenas ignoramos os aspectos morfológicos, estatísticos e sobretudo históricos dos grupos que elaboraram os referidos sistemas culturais.

Bibliografia

Epicuro (Ἐπίκουρος)

1 Teses fundamentais, aforismos da biografia de Diógenes Laércio. in Epicuro. Pensamentos. SP, Martin Claret, 2005

2 Epicuro Exortações; Frases escolhidas http://www.citador.pt/frases/citacoes/a/epicuro

3 Epicurus. Vatican Sayings translated by Peter Saint-Andre (2010) http://www.monadnock.net/epicurus/vatican-sayings.html

CAIRUS, Henrique. A fisiologia do espírito na Grécia Antiga. Calíope, PPGLC-UFRJ, 2006 http://www.letras.ufrj.br/proaera/afisiologia.pdf

COSTA, Paulo Pedro P. R. O "mar de dentro" um estudo da concepção de cérebro, mente e espírito no sistema etnomédico chinês que teve como orientador: Jurecê Jorge Machado BA, Mimeo, Fevereiro de 2003). (Resumo: http://etnomedicina.blogspot.com.br/2009/09/o-sistema-etnomedico-chines.html)

COSTA, Paulo Pedro P. R. Aforismos antigos, provérbios e conselhos para manutenção da saúde na tradição e medicina semítica. Fevereiro de 2014 https://pt.scribd.com/costapppr

COSTA, Paulo Pedro P. R. Aforismos antigos, provérbios e conselhos para manutenção da saúde na tradição e medicina hipocrática. Abril de 2015 https://pt.scribd.com/costapppr

DETIENNE, Marcel. Os gregos e nós: uma antropologia comparada da Grécia Antiga. Tradução de Mariana Paolozzi Sérvulo da Cunha. São Paulo: Loyola.

FREUD, S. Luto e melancolia (1917). In: ______. Sigmund Freud Obras Completas. Vol. 12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

GOLDIM, José Roberto, Breve Histórico da Eutanásia. Eutanásia Bioética 1997-2000 http://www.ufrgs.br/bioetica/euthist.htm Acesso Maio, 2015

GUIMARÃES, José Otávio Nogueira. Origens da antropologia da grécia antiga: Lévi-Strauss, Vernant e duas viagens de 1935 . Revista de História, Brasil, p. 39-50, jun. 2010. ISSN 2316-9141. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/19135/21198>. Acesso em: 05 Mai. 2015.

LEVI-STRAUSS, Claude A oleira ciumenta. Lisboa, PT. Edições 70, 1987

MARQUES, Marcelo P.. O conceito grego de natureza. Kriterion, Belo Horizonte , v. 48, n. 116, p. 505-509, Dec. 2007 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-512X2007000200017&lng=en&nrm=iso>. access on 05 May 2015.

REBOLLO, Regina Andrés. O legado hipocrático e sua fortuna no período greco-romano: de Cós a Galeno .Scientiae Studia, [S.l.], v. 4, n. 1, p. 45-81, mar. 2006. ISSN 2316-8994. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/ss/article/view/11067>. Acesso em: 05 Mai. 2015.

SIQUEIRA-BATISTA, R. e SCHRAMM, F. R.: Platão e a medicina. História, Ciências, Saúde. Manguinhos, vol. 11(3): 619-34, set.-dez. 2004.



domingo, 12 de abril de 2015

Acupuntura, chakras e a unidade da Ásia


O livro “Acupuntura e o sistema de energia dos chakras” de John R. Cross compara as abordagens da medicina tradicional chinesa e a acupuntura ocidental moderna com o sistema de energia dos chakras relacionado à filosofia ayurvédica. As dificuldades desta complexa comparação são superadas explorando, não a origem asiática dos sistemas etnomédicos enunciados, e sim sua relação com a prática clínica descrita segundo o paradigma científico, no qual se insere a medicina cosmopolita moderna com sua precisa descrição de patologias, plexos nervosos, glândulas e hormônios.

Uma forma lógica de compreender tais sistemas etnomédicos seria a abordagem histórico antropológica que se depara com a complexidade das interações entre tais povos ao longo dos milhares de anos de sua formação e contato, mas aparentemente interessa a Cross sobretudo, a sobrevivência enquanto conhecimento (um sistema semiótico) e prática médica (conhecimento empírico). Contudo não há como negar a demanda por uma abordagem simultaneamente sincrônica e diacrônica que este tema nos exige, sendo o sincrônico o aspecto estático estrutural do sistema e diacrônico tudo que diz respeito à sua evolução.

Por outro lado uma análise superficial da evolução desta medicina tradicional oriental sem dúvida se depara com dois centros ou conjuntos de crenças e práticas, que por sua vez poderiam ser subdivididos até a sua origem na civilização original, e se constituem no que hoje conhecemos e praticamos no ocidente como yoga/ medicina ayurvédica e acupuntura / medicina tradicional chinesa, apesar da diversidade sócio-cultural política e econômica dos cerca de 50 países que formam a Ásia no início do século XXI.

Este enigmático continente, aos olhos dos europeus e colonizados tem em comum a origem da civilização e se caracteriza como uma representação nossa do exótico oriente. A adoção de costumes e especiarias orientais não é nenhuma novidade para os ocidentais.

O estudo sobre a origem da civilização ocidental, a rigor não pode negar sua antiguidade oriental e relação com a China e Índia, o que se insere na perspectiva de uma análise na ótica da antropologia das civilizações letradas, e dispersão dos míticos indo-europeus unificados pelos romanos e cristãos em conflito com a expansão árabe e proposição do Islã. Fomos unificados pelo comércio (mercantismo), ciência (renascentista) e capitalismo industrial. O que se verifica numa perspectiva da moderna economia política que tenta decifrar os destinos das revoluções socialistas da Rússia e China e os divergentes Tigres Asiáticos (Cingapura, Taiwan, Hong Kong e Coréia do Sul - modelados pelo Japão?) como cenário do atual paradigma científico na Ásia (e no mundo moderno).

O desafio é analisar o maior dos continentes, do qual fazem parte mínimo metade da população do mundo e que conta atualmente 2.000 línguas, mas pode-se pensar numa unidade da Ásia por esses povos possuírem além de uma origem comum, muitos costumes semelhantes. Alguns possivelmente induzidos pelas grandes religiões (islamismo, hinduísmo, budismo, taoísmo, xintoísmo etc.) e entre estes costumes, de longe, se destaca a medicina tradicional.

São por demais conhecidas as semelhanças entre os conceitos da energia regulada por relações análogas as observadas entre os elementos da natureza água, fogo, terra, ar, éter (Índia) ou madeira (China) e desconhecidas as rotas de contato e dispersão entre culturas tão díspares como as Grécia, Índia e China.

Além do uso de plantas medicinais que se tornaram medicamentos ou ainda são consumidas in natura a própria acupuntura e yoga foram reintroduzidos na cultura ocidental com ampla dispersão no século XX. Tais sistemas, entretanto, foram mantidos em “compartimentos” estanques” apesar da origem comum e semelhança conceitual já demonstrada por muitos autores notavelmente Madel Luz (1988), Gabriel Stux (1994) e Svoboda, R. & Lade, A. (1998).

O livro de John R. Cross (2008) “Acupuntura e o sistema de energia dos chakras tratando a causa das doenças” recentemente traduzido (Lucimeire Sant’Anna) e lançado no Brasil (Editora Manole, 2010) corresponde a uma tese de doutorado apresentado a Britsh College of Acupuncture, em 1987, com o título de “O uso da acupuntura relacionado ao sistema de energia dos chakras” e essencialmente se constitui como um manual prático para quem já conhece e pratica arte médica da acupuntura e tem conhecimento das técnicas de meditação yogue.

Enquanto tese de doutorado, com se sabe, procede de uma cuidadosa revisão dos textos teóricos de tais práticas já utilizados no ocidente e países de língua inglesa. Seu autor, John R. Cross mora na Ilha de Skye (Escócia) prática e ensina medicina ortodoxa, tradicional (fisioterapia) e complementar há quase 40 anos. Entre seus interesses está o estudo da dor e doenças musculoesqueléticas.

Sua linha de interpretação da prática clínica que exerce, se insere nitidamente no plano das comparações de tais técnicas com a reflexoterapia e controle/estimulação do sistema nervoso autônomo, observando a clássica correlação dos chakras com glândulas do sistema endócrino e emoções, entendidas mais como sentimentos acessíveis aos relatos verbais que comportamentos.


Explora simultaneamente, embora brevemente, as concepções e possibilidades de interpretação espiritual enquanto aura ou energia etérea/eletromagnética e a intervenção biomagnética nas distintas regiões do corpo denominadas chakras na tradição indiana, com respectiva correspondência aos pontos de acupuntura. Com excelentes ilustrações, é por excelência uma recomendação que não se fundamenta apenas no exercício clínico, mas também na interpretação de tradições milenares tomadas como parâmetro, organizadas na forma de prescrições de fácil verificação, em uma forma de prática clínica que paulatinamente vem se consolidando na medicina cosmopolita ocidental.

Referências

Luz, Madel T. Natural, Racional, Social ; Razão Médica e Racionalidade Científica Moderna, Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1988

Svoboda, Robert; Lade, Arnie. Tao e Dharma, medicina chinesa e ayurveda. SP, Pensamento, 1998

Stux, Gabriel, Chakra acupuncture. Medical Acupuncture, 1994 Volume6 / Número 1

Said, Edward W. Orientalismo. O Oriente como invenção do Ocidente. SP, Companhia de Bolso, 2007

Ver também

Acupuncture and the Chakra Energy System: Treating the Cause of Disease
John R. Cross Google Books

John Cross Clinics & Publications
http://www.johncrossclinics.com

ACUPUNTURA DE CHAKRA
GABRIEL STUX, M.D. / Tradução: Paulo Pedro P.R. Costa