quinta-feira, 28 de junho de 2012

Além do ciclo vital

Algumas reflexões da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), enquanto outra racionalidade médica, equiparam-se à “exatidão” da medicina ocidental cosmopolita na determinação das fases do ciclo do vital, descrição dos modos de adoecer e morrer e/ou do indivíduo desenvolver hábitos de vida saudáveis.

Por exemplo, segundo o "Livro do Imperador Amarelo", durante as cinco estações do ano (para nós quatro) se deve ter cuidados específicos para enfrentar os perigos da umidade, frio, insolação, calor e secura, que se apresentarem, com comportamentos e dietas. Na MTC também se distinguiu fases da vida humana e se desenvolveu diferentes recomendações para os diversos períodos do ciclo vital, inclusive quanto reprodução em idades avançadas e “andropausa” (diminuição da capacidade de ejaculação e vitalidade na paternidade em idade avançada do pai). Naturalmente descreve-se também as alterações da fase reprodutiva feminina, bem mais evidentes e referidas nos sistemas etnomédicos onde a biologia da reprodução é mais conhecida, com identificação da hereditariedade em linhagens de parentesco de "descendência dupla" (matripatrilinear), como não se nota em algumas outras culturas ditas primitivas com sistemas exclusivos (matrilinear ou patrilinear).

O notável é que desenvolveu-se na China uma atenção especial à subjetividade e aspectos não mensuráveis da realidade biológica. A medicina tradicional chinesa estendeu sua ciência além da longevidade, se interessa tanto pela imortalidade, ou pelo desenvolvimento da energia (do espírito) com esse fim, como pelo processo saúde – doença.

A imortalidade e existência fora do corpo, para MTC, não são apenas concepções de cultos religiosos, podem ser estudadas nos diversos textos imperfeitamente designados como “alquimia chinesa” (a exemplo do “Segredo da Flor de Ouro” comentado por C. G. Jung) de modo integrado à prática clínica. Tais textos podem ser considerados exemplo de uma linha evolutiva de racionalidade distinta do estabelecido nos primeiros cânones médicos equivalentes à racionalidade da medicina védica ou hipocrática, que juntamente com o Nei Ching – “Livro do Imperador Amarelo” se constituem como os primeiros textos médicos. Observe-se que estes textos possuem um elemento diferenciador de outros sistemas etnomédicos, na concepção de Kleinman, a tradição escrita e sobretudo a relação mestre - discípulo em escolas estabelecidas.



Ao contrário do que pensam alguns, não houve uma estagnação do desenvolvimento da lógica conceitual "científica" no Oriente e desenvolvimento no Ocidente pós renascentista. A partir dos padrões de explicação "teórica" que se observam nos textos gregos hipocráticos e orientais de períodos anteriores, o que se pode constatar é que foram caminhos distintos, quiçá advindos de sua ancoragem na esfera do sensível e intuição ou na percepção como distinguiu Lévi-Strauss a ciência do concreto das mitologias e a ciência (lógica cartesiana) ocidental.

Diante desta maravilha de vídeo “Cardiovascular Continuum”, desenvolvido pela Visual MD (ver link) a partir da atual, fragmentada e analítica concepção médica ocidental, observe-se que no mesmo não se torna claro, (assim como a prática clínica ocidental) quem decide ou escolhe os comportamentos que se tornarão hábitos saudáveis ou não. Quem é o sujeito (individual ou coletivo?) que determina as condições e qualidade de vida ou o indivíduo que transforma sua história e seu tempo. (?) O mundo ocidental só desenvolveu parâmetros de resposta para questões como estas na psicanálise (nossa moderna mitologia, segundo Lévi-Strauss) ou nas modernas concepções interdisciplinares de saúde coletiva (medicina social), mas não no modelo cartesiano - positivista da ciência.

Observe-se também que as questões da subjetividade da energia psíquica (libido, assertividade, inteligência ou energia vital) já estavam presentes no livro do “Imperador Amarelo” ou seja bem antes de se desenvolverem, na China, toda uma ciência sobre meditação, com considerável influência do budismo e hinduísmo, configuradas posteriormente (sob influência ocidental) como religião.

O Imperador Amarelo perguntou: "Como determinar a longevidade de um homem ou se sua vida será curta, quando a energia suplantar o físico e vice-versa?" Bogao respondeu: "Para um homem saudável, quando sua energia estiver ultrapassando o físico, ele terá vida longa; para aquele cujo físico e músculos forem muito finos, mesmo que sua energia suplante o físico, como o físico e os músculos estão exaustos ele morrerá muito cedo. Se o físico da pessoa não estiver muito emaciado, mas sua energia primordial já estiver declinando, embora o físico esteja superando a energia primordial, a doença ainda oferecerá perigo". Livro do Imperador Amarelo (cópia de Bing Wang - Dinastia Tang / SP. Icone 2001, p. 524)

O "ocidente" por privilegiar o modelo biológico das doenças, a síntese química de fármacos em sua visão reducionista, motivada por interesses no desenvolvimento industrial e comercial, abandonou as concepções de energia vital e ética do sagrado, com se fossem pseudociências, relegou práticas como a homeopatia, naturopatia e mesmo a acupuntura, na própria China Imperial, a um segundo plano de valor social (sem investimentos de pesquisa). Porém, apesar de tudo, sem dúvida também por uma eficácia clínica, tais medicinas que se fundamentam nas concepções de energia vital ou em uma dinâmica espiritual - psíquica, sobreviveram e são ainda praticadas, em algumas regiões do planeta re-integradas ao paradigma da ciência médica como prática alternativa ou complementar. O desafio é, como diz meu amigo Dr. Fernando Hoisel, é ver em todas essas “ciências”, a ciência, nas “medicinas” a medicina. Além, é claro, do desafio cotidiano atual de formar bons profissionais de saúde, numa perspectiva ética e científica, controlando suas atividades por autoridades sanitárias governamentais... e como dizia o velho mestre...a arte é longa e a vida breve.


Referências

Bichen, Zhao. Tratado de alquimia y medicina taoista. Madrid, Miraguano Ediciones, 1984

Jung, C.G. O segredo da flor do ouro, um livro de vida chinês. RJ, Vozes, 1992

Kleinman, Arthur Concepts and a Model for the comparison of Medical Systems as Cultural Systems. IN: Currer,C e Stacey,M / Concepts of Health, Illness and Disease. A Comparative Perspective, Leomaington 1986

Livro do Imperador Amarelo (Bing Wang - Dinastia Tang). SP. Icone 2001

Levi-Strauss, C. As estruturas elementares do parentesco.SP, Vozes, 1976

Levi-Strauss, C. O Pensamento Selvagem São Paulo, Companhia Ed Nacional, 1976

Levi-Strauss, Claude. A eficácia simbólica (1949) in: Antropologia estrutural. SP Cosac Naify, 2008


Para saber mais sobre Saúde Comportamento ver: http://medicinacomportamental.blogspot.com.br/


TheVisualMD
Cardiovascular Continuum


terça-feira, 22 de maio de 2012

Acupuntura no Brasil

Alguns autores associam a origem da acupuntura no Brasil à práticas indígenas e tradicionais (a escarificação indígena, as sangrias dos barbeiros e aplicação de ventosas da medicina do período imperial, e/ou à marcos específicos da imigração chinesa (1812, com a autorização de D. João VI para entrada de 2.000 chineses destinados às plantações experimentais de chá do Jardim Botânico e da Fazenda Imperial de Santa Cruz, no Rio de Janeiro) e japonesa (1908, a chegada do navio Kasato Maru trazendo os primeiros imigrantes para o Brasil, após a crise do final do Período Feudal no Japão – 1895). Observe porém que essa prática da qual se tem poucas notícias era restrita aos integrantes dos respectivos grupos étnicos. Já a regulamentação do processo de ensino – aprendizagem tem como marco 1958: a fundação da Associação Brasileira de Acupuntura e Medicina Oriental e o curso ministrado pelo fisioterapeuta e massoterapeuta Friedrich Johann Spaeth natural Luxemburgo com aprendizagem de acupuntura na Alemanha.[1][2]

Abaixo vídeo com entrevista do Dr. Evaldo Martins Leite, médico, cardiologista, ex-professor da Faculdade de Medicina Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, presidente da Associação Brasileira de Acupuntura - ABA, um dos pioneiros da prática por não-orientais no Brasil formado pelo Dr. Friedrich Spaeth em 1952.

O Dr. Evaldo Martins Leite inclusive, segundo consta, já sofreu censura pública pelo CREMESP (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) devido à prática de Acupuntura bem antes do seu reconhecimento pelo Conselho Federal de Medicina para quem a acupuntura foi reconhecida pela RESOLUÇÃO CFM nº 1.455/95, revogada pela RESOLUÇÃO CFM nº 1634/2002; Modificada pela Resolução CFM n. 1659/2003, (Nova redação do Anexo II aprovado pela Resolução CFM n. 1666/2003) e parcialmente alterada pela Resolução CFM nº 1970, de 15.7.2011



Referências

[1][2] Wikipédia: Acupuntura no Brasil Maio, 2012
ver também "Discussão" sobre o verbete

[1] De Carli, Márcio Jean. História da Acupuntura no Brasil. Núcleo de Acupuntura e Terapias Naturais, Natural-in CIAA – on line (Dezembro 2010)

[2] Nascimento, Marilene Cabral. Da Panacéia Mística à Especialidade Médica. A Construção do Campo da Acupuntura no Brasil. RJ, Tese de mestrado. Rio de Janeiro, IMS/UERJ, 1997

Ver também

Evaldo Martins Leite. Acupuntura (p.17-48) in: Gonsalves, Paulo Eiró (org.) Medicinas alternativas: os tratamentos não-convencionais. SP, IBRASA, 1999 - Google Livros Maio, 2012

Entrevista : Dr. Evaldo Martins Leite - Acupuntura em São Paulo: Documentos UNIFESP Março, 2014




Acupuntura em São Paulo Documentos (entrevistas):

Ysao Yamamura; Wu Tou Kwang; Tadamichi Yamada; Renato Massaki; Geraldo Adélio de Borba; Francisco Moreno Carvalho; Célia Regina Whitaker Carneiro; Akemi Nagao.

Documentos UNIFESP Março, 2014

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Acupuntura científica uma reflexão

Tende-se a interpretar a acupuntura científica como acupuntura biomédica, como se as explicações desenvolvidas pelas ciências sociais orientando a interpretação do conhecimento mítico – religioso, não fossem uma explicação científica, ou que o entendimento dessa arte – técnica não requeresse a compreensão de seu contexto cultural, sua dimensão psicossocial e/ou espiritual. Ignorando-se também que o conhecimento oriental que, por si só, foi suficiente, durante milhares de anos, para permitir seu pleno domínio e utilização.

Por outro lado os orientais não desprezam os avanços e pesquisas biomédicas associando suas explicações tradicionais ao conhecimento científico “ocidental”. E, ainda paira no ar a pergunta: é possível à ciência ocidental, em seu atual modelo materialista de descrição e pesquisa, compreender as tradições orientais? ou, se vai ser necessário criar uma nova organização do conhecimento e das práticas profissionais, inaugurando um novo paradigma?

A concepção de “paradigma” é essencial para compreender o movimento das comunidades humanas em torno dessas explicações ditas científicas, sua hegemonia ou descrédito, o reconhecimento enquanto ciência ou não. Paradigma é uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo ideal; uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas que se sucedem.

Thomas Kuhn (1922- 1996), físico americano célebre por suas contribuições à história e filosofia da ciência em especial do processo que leva à evolução do desenvolvimento científico. Em seu livro a “Estrutura das Revoluções Científicas” apresenta a concepção de que "um paradigma, é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma", e define "o estudo dos paradigmas como “o que prepara basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica na qual atuará mais tarde".

É um desafio para o praticante ocidental conciliar o amplo espectro de disciplinas requerido para entendimento desse novo campo do saber que se inaugurou com o nome de “acupuntura” no ocidente. Inaugurou-se, mesmo para os que não têm essa consciência, articulando a neuropsicologia do efeito placebo e das relações estímulo - resposta à antropologia médica ou antropologia da saúde (o ramo dessa ciência que tem como objeto, por excelência, a interpretação de outras culturas) com a clínica médica fundamentada na neurofisiologia e bioquímica celular dos efeitos da inserção de agulhas em pontos específicos do corpo humano e animal.

Por não possuir um modelo definido de explicação teórica e prática profissional, um novo paradigma há de ser construído e não é uma legislação ou decreto que vai definir sua forma. Esse texto é um rápido passeio por duas das principais explicações biomédicas, deixando de lado (por enquanto) outras teorias e um grande número de textos referentes à experiência milenar chinesa além dos resultados das décadas dessa prática no ocidente. O objetivo é mostrar que esse conhecimento ainda não “dá conta”, não tem poder explicativo, para as amplas possibilidades de efeitos da acupuntura, reconhecendo, porém o seu valor e complexidade.

A teoria das comportas e neuromodulação da dor

A teoria das comportas (gate control) proposta por Ronald Melzack and Patrick Wall (Science, 1965), aplicada à acupuntura, talvez seja a teoria que mais contribuiu para aceitação sua aceitação no ocidente, embora limitada à explicação de seu efeito analgésico / “anestésico”.

Observou-se que ao nível do segmento medular, uma rede de neurônios intercalares, conectados por fibras "C" amielínicas, formam um sistema relé. Articulam-se com os neurônios motores das respostas reflexas locais de evitação e do aferimento de posição proveniente dos termo e mecano - receptores estáticos das articulações ou tendões e de localização cutânea gerando, em paralelo a sensação dolorosa, a informação que também situa a dor no esquema corporal.

Segundo a teoria que descreve tais conexões a distinção e articulação dos estímulos que são conduzidos por diferentes fibras nervosas, (tipo A delta - mielinizadas de diâmetro fino ("A δ" ) e tipo C - amielínicas), se dá numa região do corno sensitivo (dorsal) de cada segmento da medula (a região que também é conhecida por substancia gelatinosa de Rolando - SG) com a liberação de metencefalina pelas células pedunculadas (interneurônios inibitórios)

A interrupção das vias sensitivas que foi então nomeada porta de controle (gate control) se dá pelo bloqueio da via mielinizada pelos neurônios de axônio curto e a ativação do sistema de neurônios internunciais, da medula sensitivo dorsal pelas fibras grossas do tato (mecanoreceptores), que exercem uma ação bloqueadora na transmissão dos estímulos de dor.



Teoria das comportas

 

Nesse caso por outra via ascendente, o trato espinotalâmico, o estímulo da fibra "A δ" é conduzido ao Córtex cerebral, onde são interpretadas, ou "percebidas" como sensações de peso, distensão, calor ou parestesia que ocorrem durante o estímulo por acupuntura.

A analgesia profunda obtida por acupuntura mantém a consciência e motricidade, ocorre aproximadamente entre 20 e 30 minutos após a interseção das agulhas, mantém-se sensação de tato e pressão, alteram-se a discriminação vinda dos termoreceptores. É comum sua prática associada à sedativos em função de conservação de reflexos vegetativos e sensibilidade dolorosa do osso e periósteo. O resultado segundo diversos autores varia num limite amplo entre 45-75 % para os que a consideram perfeita e entre 25-45 %, parcial. (Dumitrescu, 1996)


Micro lesões em nível celular

Entender, em nível molecular a ação da acupuntura descrita nas teorias consensuais do “gate control” (comportas) e produção de endorfinas (bloqueadas por ação de fármacos antagônicos durante a aplicação da agulha) requer implicitamente a compreensão dos mecanismos celulares e histológicos do local da aplicação.

A caracterização do ponto de acupuntura já foi relativamente estudada com poucos resultados consensuais prestigiados, entretanto descrições e estudos da dimensão da perfuração e “dano” celular de uma agulha de 0,1 a 0,5 mm em estruturas celulares da ordem de 1 a 10 µ (micras) podem ser compreendidos a partir de certo domínio de conceitos básicos da biologia celular, especialmente os mecanismos de inflamação e reparo após lesão celular.


Quando um bisturi fere a pele ativa diretamente as fibras da dor rápida (azul) e indiretamente a da dor lenta (vermelho). Nesse último caso, as células lesadas os mastócitos do sangue e os próprios terminais nervosos secretam substâncias que geram uma relação inflamatória local. Lent. (p.231)



A compreensão dos referidos mecanismos, inclusive é essencial para o entendimento do ponto de vista ocidental do efeito da acupuntura sobre o sistema imunológico, tanto nas doenças alérgicas como infecciosas.

As células são estruturas microscópicas só perceptíveis com auxílio de instrumentos ópticos entre 7,5 µ micra (hemácia) e 200 µ (óvulo) no organismo humano. Um hepatócito, por exemplo, é uma célula cúbica 30 µ (1 µ mícron equivale a 1 milésimo de milímetro, 0,001 mm - 1 x 103 cm).

Ao nível dos pontos de estimulação a introdução de uma agulha de aproximadamente 0,3 mm espessura atinge profundidades que variam entre 1,0 a 2,5 mm (0,5 a 1 polegada) em pontos específicos. A pele humana humana apresenta duas camadas: a epiderme e a derme, sua espessura varia de 1,5 a 4 mm.

Selecionamos essa imagem e conceitos essenciais à essa forma de interpretação:


Derme e epiderme formam uma estrutura média próxima de 20 camadas de células. (1 célula - 600 µ / 0,1 mm).


A pele

A epiderme com suas 5 subcamadas (estrato córneo; estrato lúcido; granuloso; espinhoso e estrato germinativo ou de células basais) situa-se sobre a derme região vascularizada, com vasos linfáticos composta de fibroblastos que produzem colágeno e fibras elásticas (elastinas).


A derme é a camada profunda onde se localizam as raízes dos pêlos (folículos pilosos), o canal das glândulas sudoríparas e estas na camada subcutânea, que fica abaixo da derme, as glândulas sebáceas e as terminações nervosas ou receptores táteis (Corpúsculos de Vater Paccini; de Meissner; Discos de Merkel) os Corpúsculo de Krause e de Ruffini receptores de frio e calor e os nociceptores ou terminações nervosas livres (fibras de meio (1/2) milésimo de milímetro (0,0005 mm)) com diferentes concentrações ao longo dos 25.000 cm2 de superfície desse tegumento.

Ainda no âmbito do estudo da ação da acupuntura em nível celular temos que incluir a resposta dos elementos do tecido sanguíneo e conjuntivo acionados por estimulação específica, ou seja: neutrófilos, eosinófilos, linfócitos, basófilos e plaquetas no sangue e fibroblastos no tecido conjuntivo e mastócitos em ambos os tecidos. Diversas pesquisas evidenciam que os resultados da ação da acupuntura são visíveis no hemograma, como veremos.

Acupuntura molecular

Uma vez compreendida a intervenção do estímulo da acupuntura em nível celular, o que é a rigor é uma tarefa que se estenderia à micro-anatomia ou histologia de cada ponto de acupuntura, como dito, pode-se deter no estudo dos mecanismos bioquímicos de inflamação e reparo, os únicos consensualmente aceitos como efeitos da intervenção com agulhas. Embora indissociáveis ao estudo do aspecto celular o efeito da inserção de agulhas, aplicação eletricidade e calor (aquecimento da pele a 54º por 5 seg. – Robins) dá início a uma pseudo - inflamação aguda ou síndrome de adaptação local cujo efeito no sistema nervoso e imunológico ainda é pouco compreendido.

A inflamação é a reação do tecido vivo e vascularizado à uma agressão ambiental (Robins) distingue-se usualmente a fase crônica da aguda que dura cerca de minutos, horas, no máximo um ou dois dias e é a principal mecanismo que aciona a resposta humoral iniciada pelo estímulo da acupuntura considerado como uma agressão mecânica à integridade celular.

Alguns autores distinguem 3 fases mais ou menos intrincadas: a primária, dita precoce inespecífica ou vascular; uma segunda fase de infiltração celular com afluxo de macrófagos e leucócitos, e a fase tardia ou de reparação, altamente específica. (Rodrigues, 1988)

Após uma lesão celular um conjunto de mediadores químicos da inflamação é acionado, iniciando-se o processo pró - inflamatório e antiinflamatório que caracterizam o mecanismo do stress fisiológico nas reações locais (SAL – Síndrome de Adaptação Local) e gerais (SAG – Síndrome de Adaptação Global) do organismo na concepção de Stress de Hans Selye (1907-1982).

Na resposta imediata transitória distingue-se a liberação as substâncias pré formadas: as aminas vasoativas Histamina e Serotonina, as primeiras a serem liberadas; a Bradicinina, composto vasoativo, responsável pela contração da musculatura lisa e sensação dolorosa e as substâncias (recém) sintetizadas a partir do ácido araquidônico (prostaglandina, tomboxanas e leucotrienos) que mantém a resposta inflamatória, juntamente com a ação das enzimas lisossomiais resultantes de destruição celular e de produtos de neutrófilos, que são os primeiros leucócitos a serem acionados para dar início ao conhecido padrão de reação (Calor, Rubor, Tumor / Edema e Dor.) que caracteriza a inflamação.

A resposta imediata transitória inicia-se após a agressão celular/tecidual e tem seu apogeu entre 5 a 10 minutos, diminuindo entre 15-30 minutos, é despertada pela histamina e pela maioria dos mediadores químicos. A histamina é o mediador mais importante do início da resposta inflamatória aguda, em parte por já estar formada e estocada nos grânulos de mastócitos e basófilos (cerca de 5 µg por 1 milhão de células). A serotonina é encontrada além do Sistema Nervoso nas plaquetas e assim como a bradicinina é uma resposta plasmática relacionada à agressão vascular. Na cascata de coagulação a bradicinina é uma resposta plasmática acionada pelo fator XII de coagulação (fator de Hageman) rapidamente inativada por cinidases, em cerca de 10 minutos. (Siqueira Jr. ; Dantas)

Alguns autores referem-se à tempos distintos nessa seqüência de reações estudas a partir da ruptura de integridade celular conhecida como efeito “lasca” ou “farpa” extensível à introdução de agulhas esterilizados. Segundo Birch e Felt (2002) o primeiro estágio ou de vasoconstrição / formação de coágulo dura aproximadamente uns 20 minutos; o segundo, caracterizado por vasodilatação, migração de leucócitos, eliminação de produtos residuais chega a durar várias horas (entre 2 a 3 h) seguido de 3 estágio (com motilidade dos vasos) que pode dura 1 hora ou mais. Observaram também que a introdução da agulha em uma determinada região produz alterações longe do local de inserção possivelmente em tecidos ou áreas específicas possivelmente previsíveis, mas que ainda necessitam maiores investigações.

As aminas biogênicas – histamina e serotonina também possuem ação sobre neuropeptídios e respostas locais dos terminais nervosos somático sensorial, em especial as taquicininas, (substância P, neurocinina A, neuropeptídio K) provavelmente das fibras amielínicas do tipo C. Mediadores de respostas específicas do sistema nervoso autônomo também tem sido pesquisados sendo recente a identificação do neuropeptídeo Y – NPY. Entre as respostas específicas situam-se também a inflamação neurogênica. (Siqueira Jr. ; Dantas)

Ainda sobre neurotransmissores cabe referir aqui a presenças das encefalinas, que segundo White (in: Ernest, White, 2001) estão presente nas lâminas I e IV do corno posterior e na substancia cinzenta periaquedutal; a betaendorfina da substancia cinzenta periaquedutal e núcleo arqueado do hipotálamo, e a dinorfina que é encontrada em toda medula espinhal. (Ernest, White o.c. p.95)

Os leucócitos são atraídos para área da lesão, inicialmente os neutrófilos pela calicreina e ativador plasminogênico no processo de formação da bradicinina, seguidos dos monócitos e dos linfócitos para dar continuidade ao processo inflamatório a partir de suas concentrações (definidas por quimioatraentes) e demandas específicas dos tecidos. Os agentes quimiotáticos incluem produtos bacterianos, fragmentos do complemento, metabólitos do ácido araquidônico e quimiocínas.

No processo inflamatório as ações das citocinas (quimiocínas, monocinas, linfocinas, interleucinas) produzidas por linfócitos, o óxido nítrico derivado do endotélio e a ativação do sistema complemento (antígeno-anticorpo) dependem dos resultados da inflamação aguda. Podendo evoluir para resolução completa com regeneração, cura por reposição de tecido conjuntivo ou fibrose, formação de abscesso ou evolução para inflamação crônica (semanas ou meses) caracterizado a resposta altamente específica do organismo à suas agressões.

Dumitrescu (1996) em seu livro “Acupuntura científica moderna” apresenta um série de pesquisas sobre alterações bioquímicas e sistemas da acupuntura relacionadas à ação antiinflamatória / humoral a saber: ativação anti-histamínica; aumento da heparina /heparinase no sangue (anticoagulante); aumento dos 17-cetosteróides, 17-hidroxicorticosteróides e da aldosterona urinária; aumento das catecolaminas, 17-hidroxicorticosteróides, 17 cetosteróides e da corticosterona plasmática livre com uma manutenção das taxas mais elevadas após a interrupção das sessões de acupuntura. (o.c. p. 236) Dentre as alterações em nível celular refere-se à leucocitose aumento das proteínas totais, gamaglobulinas e experimentos específicos sobre proliferação de mastócitos. (o.c. p. 238)

Segundo pesquisas reunidas por Lundemberg (2001) a acupuntura tanto pode ser usada para estimular mecanismos imunológicos como para suprimir respostas específicas como, por exemplo, leucocitose e atividade fagocitária ou redução do número de eosinófilos e níveis de IgE, embora ainda não se tenha nenhuma prova rigorosa do mecanismo como o sistema imunológico reponde à estimulação de agulhas de diferentes formas ou sob diferentes condições além dos efeitos que podem ser atribuídos à liberação geral de ACTH / cortisol e mecanismos reflexos segmentares. (Lundeberg, o.c. p.131)

Explicações necessárias e suficientes

As explicações baseadas na modulação da dor, resposta humoral da inflamação e dano aos tecidos, têm mecanismos biológicos são consensualmente aceitos e por isso mesmo apontados como responsáveis pelo reconhecimento científico da acupuntura, contudo as teorias das comportas (gate control) e modulação da dor, como também designadas, possuem fraco poder preditivo na prática clínica. Ou seja fora o controle da dor não explicam a atuação em diversos quadros clínicos, mesmo os incluídos na relação da OMS aonde predominam doenças psicossomáticas.

Os mecanismos biológicos que podem ser sinteticamente definidos como neuromodulação, na concepção de Moritz ainda não são capazes de explicar a recuperação motora (regeneração do tecido nervoso?), a normalização das funções orgânicas, a modulação da imunidade, das funções endócrinas, autonômicas mentais e ativação de processos regenerativos, apesar de se somarem evidências que tais resultados ocorrem.

Como foi dito anteriormente um conjunto de explicações necessárias e suficientes, ainda está para ser construído.

Observe-se que serão as experiências empíricas dos diversos profissionais que atualmente já trabalham com acupuntura (fisioterapia, psicologia, odontologia, enfermagem, pediatria, neurologia, psiquiatria, obstetrícia etc.) associando suas respectivas práticas à sua avaliação de resultados terapêuticos um dos fundamentos de sua compreensão do ponto de vista ocidental

Naturalmente aliando tais explicações ao domínio das explicações da medicina tradicional chinesa enquanto prática empírica milenar e teórica intermediada pela antropologia num esforço de interpretação biomédica ocidental já esboçada.

Estes, a meu ver, são os elementos da construção de uma teoria científica da acupuntura e em função dessa complexidade melhor uma graduação universitária específica com especializações nas diversas áreas que já se formaram e são inevitáveis na atual conjuntura das práticas de saúde atuais.


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Bibliografia

BIRCH, Stephen J.; FELT, Robert. Entendendo a acupuntura. SP, Roca, 2002

COTRAN, R. S.; KUMAR, V.; ROBBINS, S. T. Robbins: Patologia estrutural e funcional. 5. ed. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 1996

CARNEIRO, Norton Moritz Acupuntura baseada em evidências edição do autor, 2000
http://www.acupunturatual.com.br/livroabe.htm (2001)

DUMITRESCU, Ioan Florin. Acupuntura científica moderna. SP, Andrei, 1996

KUHN, Thomas. Estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1978

HARRIS, Maria Inês N. C. Pele, estrutura, propriedades e envelhecimento. SP, Ed. SENAC SP, 2005

LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais de neurociência. SP, Atheneu,2004

LICO, Maria Carmela Modulação da Dor, Mecanismos Analgésicos Endógenos Rev Ciência Hoje vol 4 nº 21 Nov-Dez. (66-75) 1985

LUNDEBERG, Thomas. Efeitos da estimulação sensorial (acupuntura) nos sistemas circulatório e imunológico. in: ERNEST, Edzard; WHITE, Adrian. (org.) Acupuntura, uma avaliação científica. SP, Manole, 2001

PESCHANSKI, Marc. A biologia da dor, RGS, L&PM, 1987

RODRIGUES, Luiz Erlon A. Antiinflamatórios não esteróides. Ba, Centro Editorial e Didático da UFBA, 1988

SELYE Hans, Stress a tensão da vida. SP, IBRASA, 1965

SIQUEIRA JR, José F.. ; DANTAS, Carlos José S.. Mecanismos celulares e moleculares da inflamação. RJ, Medsi, 2000

Wikipédia, verbetes ptt / em: Acupuntura, Paradigma, Inflamação, Pele, Leucócito
 


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sábado, 14 de abril de 2012

Medicina Tradicional Oriental



Agora, em um momento tão conturbado quanto à questão da Acupuntura no Brasil, em que se desperdiça uma enorme quantidade de tempo e energia com projetos, emendas, denúncias ... a Medicina Tradicional Oriental (MTO) acaba perdendo o elo de ligação do homem com o Universo e passa a ser utilizada como um elemento classista, é o que nos alerta Victor P. R. Lima no prefácio do livro do Dr. José Luis Padilla Corral, “Fundamentos da Medicina Tradicional Oriental”. Para Lima um pequeno presente, dedicado a todos aqueles amantes da vida, que de nenhuma maneira tem a pretensão de querer explicar tudo, mas tem a intenção de resgatar a Medicina Tradicional Oriental como algo mais humano, do povo, popular e ao serviço de todos.

Traduzido para português pelo mesmo autor do prefácio e colaboradores da Escola Neijing Brasil esse livro é resultante de cursos ministrados na sede da OPAS / OMS (Organização Panamericana da Saúde / Organização Mundial de Saúde) em Lima / Peru.

Segundo o Dr. José Luis Padilla Corral os postulados de saúde, enfermidade, prevenção e tratamento da Medicina Tradicional Oriental não constituem, em nenhum momento, um enfrentamento à medicina moderna. Se isso ocorre no cotidiano é devido à escassa formação dos médicos ocidentais e ao forte contingente de prejuízos nascidos da ignorância. Na atualidade, na República Popular da China, a permanente colaboração de ambos os pontos de vista tem possibilitado a realização de inúmeros trabalhos de investigação e uma aposta comum em fazer do sanador um servidor da saúde com todos os elementos que hoje a humanidade dispõe de forma fidedigna.

Segundo Corral a MTO não é uma medicina e sim uma tradição minuciosamente transmitida através de conceitos universais do lugar existencial do homem. Suas remotas origens de mais de 5.000 anos, antecedem a concepção de “China” e podem ser consideradas pertencentes a todo oriente. A MTO reafirma as evidências clínicas da medicina atual, que vem comprovando a sua eficácia. Alertando-nos que a OMS faz a oportuna recomendação de seu emprego e constata que recentemente, a influente Organização Norte-americana de Saúde tem apoiado a sua aplicação em diferentes doenças, mantendo, assim, a porta aberta às futuras investigações que comprovem outras aplicações. Vale ver.

Esse livro foi editado pela editora Roca (SP) 2006 e a ilustração do meridiano do coração aqui apresentada é uma das 20 ilustrações apresentadas sobre os meridianos.

Médicos & Curandeiros



Para realizar esta seleção de imagens de médicos e curandeiros, dois critérios de seleção foram utilizados na seleção, um biográfico, buscando imagens que melhor definissem a identidade de importantes personalidades na história da medicina cosmopolita (ocidental) e imagens que caracterizassem o momento histórico ou contexto sócio cultural de sua atuação clínica, ou seja, de intervenção no processo saúde doença, (exame, diálogos, práticas rituais, de ensino – pesquisa, preparação de medicamentos etc.) o que na falta de outra palavra pode ser definida como ato clínico, considerando, como diz Naomar Almeida-Filho, a natureza complexa, subjetiva e contextual da relação saúde/doença/cuidados e processos sociais.

Um outro critério para descrever ou definir cada uma dessas imagens pode ser os distintos itinerários terapêuticos ou sistemas etnomédicos que representam. O conceito de etnomedicina que tenho utilizado se baseia em Horacio Fábrega que definiu esse enfoque como: o estudo da forma como os membros de diferentes culturas pensam sobre a doença e se organizam socialmente para seu tratamento. Os estudos etnomédicos típicos se concentram na classificação e no significado cultural do adoecimento (tanto somático como mental) e nas condutas de recuperação da saúde destes, bem como, nas teorias e práticas dos curadores.

A maioria dessas imagens é de domínio público, algumas de copyright reservado, mas estão em processo de solicitação de autorização (observe a indicação de autoria no nome do arquivo).

segunda-feira, 26 de março de 2012

Acupuntura na Science Photo Library


Ilustração artística sobre uma teoria neurológica que explica os efeitos da acupuntura. Acupuntura é a terapia tradicional chinesa que coloca agulhas na pele (ver extremo do quadrante inferior esquerdo). A explicação tradicional é que agulhas inseridas em pontos de acupuntura podem restaurar o equilíbrio e fluxo de uma energia ou força vital chamada Qi. Em neurociência explicam-se tais efeitos em termos de sinais nervosos. Aqui, o sinal da dor (vermelho) e da agulha de acupuntura, cujo sinal é transmitido (azul) do joelho até a medula espinhal, e desta até o cérebro. Em certos pontos de transmissão (Box da medula espinhal, em baixo à direita, e Box do tálamo no canto superior direito) o sinal de acupuntura suprime o sinal de dor. Além disso, no tronco cerebral ao nível do núcleo magno da rafe (box no centro à direita), o sinal de acupuntura provoca a liberação de endorfinas, analgésicos naturais do corpo.


Ver texto original (en) e site da imagem acima: http://www.sciencephoto.com/media/286142

Ver outras imagens selecionadas da acupuntura tradicional e de ilustrações bases bioquímicas e fisiológicas do seu efeito na Lightbox list

Science Photo Library http://www.sciencephoto.com/

quinta-feira, 1 de março de 2012

Plantas calmantes, história e composição química.


Esse breve ensaio reúne anotações da história de utilização e composição fitoquímica das principais plantas tidas como calmantes e sedativas da medicina tradicional chinesa e ocidental, comparado simultaneamente a conceituação de efeito calmante no sistema etnomédico chinês, que abrange a fitoterapia, acupuntura e técnicas de meditação, com as perspectivas farmacológicas e ocidentais de interpretação.

Calmante, tranqüilizante e sedativo são os principais nomes que se dão aos medicamentos capazes de reduzir a ansiedade e exercer um efeito calmante ou sonífero, contudo, do ponto de vista farmacológico algumas distinções podem ser feitas quanto à natureza desse efeito.

Inicialmente podem-se distinguir os efeitos de controle da ansiedade e suas formas de expressão autonômicas, os efeitos dito ansiolíticos, com pouca ou nenhuma ação sobre as funções motoras ou mentais, dos efeitos hipnóticos. A propriedade de induzir o sono (gr. hypnos) é característica dos medicamentos classificados como hipnóticos cuja qualidade é produzir sonolência e estimular o início e a manutenção de um estado de sono que se assemelhe o mais possível ao estado do sono natural.

Os efeitos hipnóticos envolvem uma depressão mais profunda do sistema nervoso central (SNC) do que a sedação, o que pode ser obtido com a maioria dos medicamentos sedativos, aumentando-se simplesmente a dose.

Segundo Goth esses efeitos progressivos relativos à dose podem ser indicados como uma sequência linear:

sedação ↔ hipnose ↔ anestesia ↔ coma → morte

Origens

A história desses fármacos tem duas vertentes, se considerarmos os compostos naturais, uma das primeira das substâncias conhecidas por essas propriedades foi o álcool (etanol) obtido, mesmo nas culturas mais “primitivas”, a partir da fermentação dos açucares dos frutos ou de outras partes de plantas como videira, macieira, centeio, e cana de açúcar, cujos efeitos ansiolíticos são basicamente similares ao dos compostos modernos (Graeff, 84) embora seus efeitos colaterais e capacidade de provocar dependência não o sejam. Outra planta com propriedades similares é a Papaver somniferum, mais popularmente conhecida como Papoula do Oriente, antiga conhecida da humanidade por suas propriedades, originária da Ásia Menor e cultivada na China, Irã, Índia, divulgada no ocidente através dos gregos que a chamavam de opion, diminutivo de opós (suco vegetal). Outras plantas tradicionalmente utilizadas por esses povos ainda podem ser identificadas por possuírem propriedades depressoras do SNC, como veremos aqui.

Na perspectiva do desenvolvimento de compostos sintéticos a história dos sedativos se inicia com o uso dos barbitúricos por Fisher e Von Mering em 1903 (Goth), substâncias ainda de ampla utilização como sedativos, combinado com analgésicos, reconhecidas como úteis no controle da dor e por possuírem propriedades anticonvulsivantes.

O "ácido barbitúrico" foi descoberto por Adolf Von Baeyer em 1864, atua de modo semelhante ao clordiazepoxido (Librium), descoberto por Leo Sternbach em 1955 e introduzido no mercado nos anos 60 através da Hoffmann–La Roche. Os vinte ou mais compostos benzodiazepínicos, atualmente existentes no mercado e os derivados do ácido barbitúrico atuam no Sistema Nervoso Central aumentando a ação do neurotransmissor inibitório GABA (ácido gama-aminobutírico), mas ao contrário de muitos barbitúricos as benzodiazepinas não possuem capacidade de induzir anestesia.

Uma relevante descoberta, ocorrida nesse intere, um pouco antes da síntese das benzodiazepinas ainda na década de 50, foi a descoberta das drogas denominadas tranqüilizantes (clorpromazina, reserpina e asaciclonol), capazes de acalmar sem induzir o sono ou evoluir para estados de coma feito o grupo dos sedativos hipnóticos, por isso mesmo iniciou-se uma ampla utilização na psiquiatria, para tratamento das psicoses. Experimentos indicavam sua ação sobre regiões hipotalâmicas e sobre a serotonina.

Observe-se, porém que a reserpina é um derivado (alcalóide) também obtido por extração da planta Rauwolfia serpentina utilizada na Índia como tratamento da epilepsia mordida de serpente e outras doenças introduzida ma Europa por um médico alemão no séc. XVI (Himwich, 1955).

As drogas psiquiátricas modernas já estão na terceira ou quarta geração de síntese e experimentação, a partir dessas descobertas iniciais, as categorias de classificação são mais ou menos as mesmas, sedativos, hipnóticos (sedativos- hipnóticos), tranqüilizantes ou calmantes, novas categorias, porém se desenvolveram por seus efeitos cada vez mais específicos, tipo os anti-psicóticos, estabilizadores do humor e antidepressivos

Etnociência X abordagem tradicional

O problema de identificar e aprender a lidar com as plantas tidas como calmantes, que se somam na ordem das dezenas de espécies nos livros de plantas medicinais, seria então descobrir as características específicas tal como a indústria farmacêutica o fez. Classificar plantas do tipo: Alface, Camomila; Capim santo, Casca preciosa, Erva cidreira; Kawa-kawa, Maracujá, Mulungu, Lavandula, Valeriana, etc. Verificar as que se aproximam dos sedativos hipnóticos e as que se enquadram na categoria dos tranqüilizantes. O que numa retrospectiva do que foi falado seria as que se aproximam da Papaver somniferum (morfina, heroína, codeína etc), etanol ou da Rauwolfia serpentina (reserpina).

Não há dúvidas de que o mito e as tradições quase sempre acertam. Não foi assim que se soube que a erva cidreira européia Melissa officinalis tem propriedades análogas á Lippia geminata (falsa-erva-cidreira ou melissa)? Estendendo-se mais, se observou sua semelhança ao capim-limão (Cymbopogom citratus) também chamado de erva-cidreira ou capim-cidreira. As apuradas observações organolépticas de nossos raizeiros e médicos tradicionais quase sempre não falham e apesar dos avanços da antropologia ainda engatinhamos na compreensão das analogias contidas nos mitos.

Nesse caso o caminho da farmagnosia e fitoquímica reforça essa idéia da identificação de características moleculares semelhantes. No grupo de plantas calmantes, por exemplo, encontram-se alcalóides: na Valeriana officinalis (o monoterpeno valerianina); na Passiflora edulis (β-carbolinas: harmano, harmino, harmalina e harmanol); na Rauwolfia serpentina (o indol monoterpênico reserpinina) e na Papaver somniferum (os morfinanos tipo morfina), mas isso não os coloca no mesmo grupo de ação farmacológica sobre o SNC, além de não explicar o grupo excluído. O que reforça a necessidade de articulação de pesquisas etnobotânicas e etnomédicas selecionando plantas e formas de uso ou indicações clínicas além da identificação mais precisa dos compostos moleculares como a indústria farmacêutica tem feito.

Tradição Chinesa

No processo de “importação” da acupuntura, atualmente uma técnica cosmopolita de ampla difusão, vieram novos conceitos de “sedação”, de diagnóstico da “insônia”, “ansiedade” bem como de seu tratamento com o auxílio da fitoterapia, recurso de comum utilização entre os terapeutas tradicionais chineses.

Como se sabe os pontos de acupuntura são puncionados com objetivo de estimulação, o estímulo entretanto não é indiferente ao modo como é feita essa punção e a expectativa dos efeitos nessa teoria são dois padrões de resposta diametralmente opostos resultantes do modo de estimulação: a tonificação e a sedação. (Sussmann). No momento nos interessa a comparação da “sedação” seja obtida por estimulação com agulhas em postos específicos ou por ação de psicofármacos, mais especificamente as substâncias que, segundo essa tradição, são descritas por Noleto e Ling, como sedativas, que nutrem o coração e acalmam a mente (Yang Xin An Shen Yao).

Segundo Botsaris, autor de extensa pesquisa sobre a fitoterapia chinesa e plantas brasileiras a sedação é um método que provoca a redução da atividade do Chi (Qi) e a dispersão dos acúmulos, citando-nos o Su Wen: ...”sedar é rachar o duro, dispersar o que está acumulado”. Está indicada nas síndromes de excesso e de estagnação de Chi e sangue cujos sintomas, ainda segundo esse autor, são variados, mas incluem: grande agitação ou insônia, vertigens rotatórias, convulsões, cefaléias intensas, dores, plenitude no tórax e abdômen, nódulos, massas e visceromegalias e formalmente contra indicada em síndromes de deficiências.

Observe-se a complexidade dessa distinção, pois há de se distinguir os aparentes excessos energia, agitação e ansiedade (falso yang) em síndromes de deficiência tipo xu a exemplo da insônia causada por insuficiência de yin dos rins ou xu do baço ou a palpitação e ansiedade por deficiência de Chi e sangue além do distúrbio mental devido ao medo (rim) (livro dos quatro elementos).


No citado livro Botsaris e de Noleto e Ling há referências às seguintes ervas capazes de “nutrir o coração e acalmar o espírito”:

- Ziziphus jujuba Mill var spinosa Hu (Semen Ziziphi Spinosae) Jujuba selvagem, Suan Zao Ren (contém alcalóides sanjoinine A e nuciferine)

- Thuya orientalis L. (Biota orientalis Endl. Platycladus orieantalis) – Sêmen Biotae, Bai Zi Ren, Cipreste de cemitério, Tuia, Arvore da vida. (contém alcalóides, glicosidios, flavonoides taninos e saponinas)

- Albizzia julibrissin Durazz., Albizzia kalkora (Roxb.) Prain. Córtex Albizziae. "huan hua" (contém flavonol glicosides, com demonstrada atividade sedativa e possílvemente variantes do DMT)

- Ganoderma lucidum. Ganoderma japonicum. Lingzhi ou Reishi. (contém triterpenos e polisacarídeos)

- Polygonum multiflorum Thumb. (Fallopia multiflora) Caulis Polygoni multiflorii, 何首乌; he shou wu (contém lecitinas e antraquinonas livres e conjugadas, sua raiz tuberosa também contém mais de 1,2% de uma substância conhecida como tetrahidroxiestilbeno glucosidio, (2,3,5,4′-tetrahydroxy stilbene-2-O-D-glucoside) que tem sido considerado ser seu princípio ativo)

- Polygonum tenuiflolia Willd. Radix Polygalae tenniflolia, Yuan Zhi (contém triterpenóides, saponinas, tenuifoilina, tenuigenina, prosenegenina, xantonas)

- Valeriana officinalis Rhizoma Valerianae (entre seu componentes encontram-se: ácido valérico, ácido valerênico, valerenona, valerenal, bomil isovalerianato, canfeno, pineno, aIcalóides (chantinina, valerianina), valepotriatos (valtrato, acevaltrato, valechlorina), didrovaltratos (didrovaltrato, homodidrovaltrato, deóxidodidrovaltrato), isovaltratos, valerosidatum, valerianol, beta bisaboleno, ledol, terpinolene, â-sitosterol, taninos e resinas) Botsaris assinala também que os valepotriatos possuem atividade farmacológica semelhante aos benzodiazepínicos, inibindo impulsos eferentes para o hippocampus e que o ácido valerênico possui ação sedativa semelhante à dos barbitúricos, produzindo depressão generalizada do S.N.C., reduzindo a transmissão de estímulos de forma global, assim como diminuindo a atividade e lentificando as ondas no EEG.

- Cannabis sativa entre os chineses a Huo-ma (dà má - 大麻) é referida no “manual dos médicos de pés descalços” como laxante, ante-espasmodica (desconforto abdominal que melhora com a pressão). É descrita como uma planta neutra e tônica para funções Yin sua ação (especialmente das sementes) sob forma de chá é indicada para pacientes idosos com irritabilidade insônia, boca seca e constipação. Segundo a concepção etnomédica chinesa é capaz de “apagar o fogo”, “umedecer os intestinos”, “tornando descendente o Chi túrbido” provocando defecação e podendo simultaneamente tonificar a insuficiência. (Botsaris; Manual del medico descalzo; Noleto e Ling)

Minerais

Além das plantas medicinais são referidos como substâncias tranqüilizantes (que acalmam o espírito ou a mente – An Shen Yao) alguns minerais, a saber Draconis (osso fossilizado); Conchas de ostras (Ostrea gigas O. rivularis) e Madreperola (Pteria margaritifera, P. martensii); Magnetita; Cinnabaris (Sulfito de mercúrio); Hematita. (Botsaris; Noleto e Ling) Para Noleto e Ling o pó das ostras Haliotis diversificolor Revee e Ostrea gigas Thumb tem a função de “pacificar o fígado e dominar o Vento”.

No ocidente por volta de 1949 o psiquiatra australiano John Frederick Joseph Cade (1912-1980) identificou efeitos do carbonato de lítio como estabilizador de humor no tratamento do transtorno bipolar (então conhecida como psicose maníaco-depressiva).



Paralelo ocidental

Ainda está para ser realizado um quadro comparativo das diversas possibilidades de atuação da acupuntura sobre o sistema nervoso (efeito analgésico, anti-hipertensivo, anticonvulsivante, sedativo, hipnótico, antitérmico etc.) somado ou não à ação de fitoterápicos, tomando-se como base (padrão ouro) os conhecidos medicamentos de ação sobre o sistema nervoso (morfina, ácido acetilsalicílico, reserpina, fenobarbital, benzodiazepina, dipirona sódica, etc.) ou as plantas medicinais com tais efeitos.

Entre as plantas mais utilizadas e comercializadas no mundo ocidental como calmantes inclui-se:

Alface, Lactuca sativa, conhecida desde antiguidade, especialmente Egito e medicina tradicional persa (Iran). Possui 4 principais variedades cultivadas: Lactuca sativa var. capitata (alfaces-repolhudas, Batávia); Lactuca sativa var. longifolia (aface-romana); Lactuca sativa var. (afaces- crespas frisadas); Lactuca sativa var. latina (alfaces-galegas). Utilizada em medicina como extrato feito a partir de seu suco lactescente (Lactucarium) com propriedades semelhantes aos opiáceos (Lima - ITF). Contém cumarinas, flavonóides, lactonas sesquiterpênicas (lactupicrina (VIII), lactucina (IX), 8-deoxilactucina e ixerinas (ITF; Santos)

Lavanda (alfazema), Lavandula officinalis é originária da costa mediterrânea da Ásia Menor onde é utilizada na medicina tradicional, conhecida como 'osto khuddous'. Principais componentes: Princípio amargo, fitoesteróis, óleos essenciais, cumarina, acredita que seu efeito anticonvulsivo e hipnótico é causado por bloqueio dos canais de cálcio. (Arzi)

Camomila, Matricaria chamomilla - camomila verdadeira - (Matricaria recutita) distinta da Camomila-romana (Anthemis nobilis). Faz parte da flora européia, utilizada na medicicina tradicional desde a antiguidade seu nome popular vem do grego χαμαίμηλον (chamaimēlon). Contém matricina, alfa-bisabolol, apigenina, azuleno (o sesquiterpeno camazuleno), flavonóides (chrysin) – também encontrado em espécies de Passiflora (P.caerulea)

Capim limão, Cymbopogon citratus (capim cidreira, erva cidreira). Planta originária da Índia utilizada na medicina tradicional como febrífugo. (Teske Trentini) Constituintes químicos: óleo essencial contendo principalmente citral (XXXV) e geraniol (XIII) e neral; sesquiterpenos e triterpenos, como cimbopoqonol (XXXVI) e cimbopogona. Nas raízes foram encontrados alcalóides indólicos .

Casca preciosa, Aniba canelilla (H.B.K.) Mez. também conhecida como casca-do-maranhão, canela-cheirosa, folha-preciosa, amapaina, pereforá, pau-cheiroso, pau-rosa. Comum na Amazônia, utilizada na medicina tradicional da região como para diarréia tosse tida como analgésica, atiespasmódica e tônica do SN. Contém álcool sesquil terpênico, anabasina, euginol, linalol, metil-eugenol, nitrofeniletano, anibina e taninos. Sua atividade analgésica é atribuída ao 1-nitro-2-feniletano (Lima)

Erva cidreira, Melissa officinalis , erva cidreira verdadeira, toronjil (Español); balm (English) Espécie de origem européia cultivada no mediterrâneo mencionada por Dioscórides e Paracelso. Contém monoterpenos (citral); ácidos carboxílicos fenólicos (ácido rosamarínico); aldeídos monoterpênicos (geranial, citronelal, neral); flavonóides (luteolina); compostos terpenóides (ácido carnósico, ursólico, oleanólico e outros). Compõe um tradicional medicamento conhecido por Água de Melissa, utilizado como sedativo, estudos mais modernos tem revelado afinidade com receptores muscarínicos e nicotínicos e utilizada experimentalmente para doenças que alteram a função colinérgica entre as quais a D. Alzheimer. (Sena)

Erva cidreira, Lippia alba, melissa, cidreira brava, utilizada na medicina popular brasileira, como já referido, possivelmente por analogia à espécie européia. Segundo Lima (ITF) sua composição fitoquímica inclui alcalóides; flavonóides; saponinas; taninos iridóides; óleos essenciais: geraniol, butirato de geraniol, geranial, eugenol, neral, nerol, citronelol, citronelal, acetato de citronelol, B-cariofileno, óxido de cariofileno, alloaromadendreno, cis-a-bisaboleno, metil-heptenona, germacreno D, linalol, limoneno, cubenol, trans-ocimeno, t-octen-S-ol, borneol, copaeno, lipiona, dihidrocarvona, 1,8-cineol, citral, p-cimeno, metildecilcetona, mirceno, piperitona, sabineno, aterpineol, cimol, a-cubebeno, ácidos fenólicos.

Kawa-kawa, Piper methysticum Forst. arbusto natural da Malásia e nas ilhas da Polinésia, utilizado nas ilhas de Fiji, Samoa e Tonga, no tratamento de doenças e em cerimônias religiosas. Contém alfa-pironas, kavolactonas ou kavopironas: kavaína, diidrokavaína, iangonina, metisticina, diidrometisticina, 11-metoxi-iangonina, 11-metoxi-nor-iangonina, desmetoxi-iangonina, 5-hidroxi-diidroxi-kavaína. Flavonóides: flavokavanina A e B. Outros: amido (43%), glicídios (3,2%), glicosídeos, minerais (3,2%), óleos essenciais (bornil-cinamato), proteínas (3,6%), resinas.

O mecanismo de ação da Kava Kava deve-se principalmente à sua ação no sistema nervoso central, onde atua como ansiolítico, antidepressivo, regulador do sono e anticonvulsivante. Seus mecanismos de ação incluem , a modulação da atividade do sistema límbico, hipocampo e da amígdala, com a modulação dos receptores GABA-A, a inibição dos canais de sódio, a inibição da liberação de glutamato e da recaptação de dopamina e o aumento do estímulo dos receptores serotoninérgicos

Maracujá, Passiflora edulis, (P incarnata; P. alata; P, quadrangularis) granadilla (Español); passion flower (English). A família Passifloraceae inclui entre 16 – 27 gêneros, com cerca de 530 - 600 espécies espalhadas por todo o mundo. Utilizada em diversos sistemas etnomédicos da América referida por Guilherme Piso (1648) em sua expedição ao Brasil e nos codex astecas (quanenepilli). Sua composição inclui alcalóides (β-carbolinas: harmano, harmino, harmalina e harmanol), flavonóides (saponina, vitexina saponarretina, apigenina, orientina) glicosídeos cianogênicos (passiflorina, ginocardina), fenóis e frações de esteródes (sitosterol, estigmasterol) (Botsaris, Machado; Sena)

Mulungu, Erythrina crista-galli, tupi Mulungu, corticeira; flor-de-coral ; murungu; sananduva, árvore da mata atlântica que faz parte farmacopéia de uso tradicional sul americana . Contém alcalóides (eritrina, erisopina, erisodina, eritramina, eritratina, eritrocoraloidina, erisovina, erisonina); glicosídeos (migurina); esteróides, compostos antociânicos (pelargonidol, cianidol). (Teske, Trentini; Lima – ITF) Seus Alcalóides atuam sobre o SNC, causando bloqueio neuromuscular, relaxamento da musculatura lisa e ação anticonvulsivante (Lima – ITF)

Calma e tranquilidade

Voltando à concepção oriental sobre a sedação, calma e tranquilidade, temos que considerar que tal estado pode ser simplesmente obtido e/ou mantido por um processo estritamente de origem psicológica ou comportamental. Adquirido através das práticas psicoterapêuticas ou como pondera Watts, (1961) através dos estilos de vida do budismo, taoísmo, vedanta e da ioga.

Comparando a “ação” das referidas práticas orientais, esse mesmo autor observa que a principal semelhança entre esses estilos orientais de vida e a psicoterapia ocidental de uns e de outra é provocar mudanças de consciência, mudanças em nossa própria maneira de sentir a nossa própria existência, nosso relacionamento com a sociedade humana e com o mundo natural. Observa ainda que o psicoterapeuta tem-se interessado mais por mudar a consciência de pessoas perturbadas enquanto que as disciplinas do budismo e taoísmo a de pessoas normais, socialmente ajustadas. Contudo, observa também, que os psicoterapeutas tem se dado conta que a nossa cultura é um contexto gerador de doença mental, enquanto uma sociedade voltada para produção de riqueza material individualizada e destruição mútua de sociedades vizinhas, longe de ser a condição ideal de saúde social. (Watts, (1961) p. 22)

Sem ignorar os problemas das populações asiáticas é ainda Watts que nos cita como exemplo uma combinação entre os termos taoístas e budistas sobre o “te” (virtude, graça de viver) enquanto solução individual dos problemas existenciais da angustia humana. Para finalizar lhes deixo a citação de Chuang-tzu selecionada pelo referido autor (Watts, 1995) sobre a essência da libertação e resistência às adversidades e infortúnios da existência humana:

Aquele que compreende o Caminho [o Tao] sem
dúvida dominará os princípios básicos. Aquele que domina
os princípios básicos, sem dúvida saberá como lidar
com as circunstâncias. E aquele que sabe como lidar
com as circunstâncias, não permitirá que as coisas lhe
façam mal. Quando um homem possui a virtude perfeita
[te], o fogo não o queima, a água não o afoga, o frio e o
calor não o afligem, os pássaros e animais selvagens não
o ferem.


Mas prossegue afirmando:

Não estou dizendo que ele dá pouca importância a
estas coisas. Quero dizer apenas que ele distingue entre
segurança e perigo, contentando-se com a fortuna ou o
infortúnio, e é cauteloso em suas idas e vindas. Por conseguinte,
nada pode causar-lhe dano.


Chuang-tzu trad. Watson apud Watts (1995)

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XIANZHILOU Ganoderma lucidum -http://www.superganoderma.com/ (Fev. 2012)

Ver também

- Cinnabaris 朱砂 (Zhusha)

- Dian Kuang - 癫狂

Costa, Paulo Pedro P. R.
Algumas considerações sobre prescrição de psicofármacos por psicólogos.