sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Specimen Medicinae Sinicae




Andreas Cleyer nasceu na Alemanha, 1634 e faleceu em Jakarta (Indonésia)1698, foi um botânico, médico e orientalista.

Integrante da Companhia Holandesa das índias Ocidentais (Vereenigden Oostindischen Compagnie - VOC) como soldado ganhou fortuna com o comércio internacional no sudeste asiático.

Sua licença para praticar medicina o auxiliou nessa progressão, ocupou o cargo de gerente da farmácia do hospital militar da VOC em Batávia e depois em farmácia da cidade. Publicou estudos sobre diversas plantas asiáticas na “Miscellanea curiosa medico-physica Academiae naturae curiosorum sive Ephemerides Germanicae” entre as quais Ginseng, Chá, Ópio, Acacia catechu entre outras espécies medicinais descrevendo detalhadamente com ilustrações a flora japonesa em um trabalho que permaneceu inédito com publicações parciais.

Publicou como editor dois livros sobre a medicina chinesa:

- Specimen Medicinae Sinicae, sive Opuscula Medica ad Mentem Sinensium . Zubrodt, Frankfurt 1682. uma coleção de traduções feitas pelos Jesuítas do qual foram extraídas as ilustrações acima e:

- Clavis medica ad Chinarum doctrinam de pulsibus / autore Michaele Boymo ... em lucem Europaeam produxit Cl. Dn. Andreas Cleyerus ... . Norimbergae, 1686

Referências

Andreas Cleyer, Wikipedia

Cleyer, Andreas (Livros originais)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

医生 (Médico)



[ Imagens da China, Thomas Allom, 1843 ]


As práticas médicas, tal como as conhecemos, nos registros etnográficos, confundem-se com a descrição de técnicas corporais para os mais diversos fins (higiene, nutrição, prazer, êxtase, defesa pessoal, etc.) e com os fenômenos mágicos – religiosos. Podem ser definidas como uma racionalidade (médica) ou um sistema lógico e teoricamente estruturado, além de um comportamento orientado para obtenção e preservação da saúde através de práticas culturais específicas.

Esse breve escrito se destina a contribuir para o entendimento da especificidade da profissão da acupuntura, 针灸医生, o acupuntor [zhēn jiǔ agulha/moxabustão (acupuntura) yī shēng médico] desde suas origens e/ou em seu contexto original partindo do princípio de que não se pode entender a acupuntura senão no contexto da medicina chinesa. A abordagem etnográfica se caracteriza pela observação e registro dos fatos sociais (Mauss) sejam eles acontecimentos históricos, regras e normas ou técnicas de manufatura de objetos, relativas ao uso do corpo e mesmo o conhecimento e a arte que compreendemos como "medicina", tudo registrado como anotações que compõem o diário de campo dos etnógrafos, com ou sem fotografias, e os relatos (ou textos) de informantes legítimos.

Complexidade chinesa

Uma abordagem etno-historiográfica de qualquer aspecto da vida chinesa se depara diante da complexidade de lidar com a mais antiga das grandes nações. As dimensões de sua tradição são mais de 5.000 anos de historia no terceiro maior país da terra em extensão territorial (9,56 milhões de Km2) e a mais povoada nação do mundo (1.074.060.000 habitantes - em 1984 - excluindo Formosa).

O universo lingüístico da Ásia Oriental, segundo Gernet, incluiu 5 grandes grupos: (1) As línguas Altaicas onde se inclui o grupo mongol; (2) As línguas do Nordeste asiático (Japonês e Coreano); (3) As línguas Sino – Tibetanas onde se destacam os grupos Tibetanos – Birmaneses, Chineses e os grupos da Thai e Miao-Yao; (4) As línguas Austro – asiáticas e (5) línguas Malaio-polinésias.

Identifica-se hoje na China 56 Etnias, 55 destas (com 60 milhões de pessoas) reconhecidas oficialmente com seus costumes e estilo de vida cercadas pela população majoritária que se considera chinesa e se auto denomina Han (originária de um grupo do norte que dominou a China por 400 anos), embora mesclados com inúmeros sub-grupos e falando centenas de dialetos como: cantonês, wu e mandarin ou puton-ghua (a língua da burocracia estatal) utilizam a mesma escrita, o que é considerado um poderoso fator da unidade cultural e política, introduzido oficialmente durante o breve governo da dinastia Qin por volta de 200 aC..

Etnomedicina

É muito conhecido e divulgado que um dos primeiros livros de medicina corresponde ao registro das conversas entre Huang Di e seus ministros, descrito também como, médico e mestre Taoísta, Qibo de onde surgiu a obra conhecida atualmente como Nei Jing (内經) (pinyin: Nèijīng) - " O Livro do Imperador Amarelo.

Dados arqueológicos e relatos míticos lendas associam o Imperador Amarelo, Huangdi e seu legado civilizador à etnia (e dinastia) Han, (206 a.C. —220) mas há muitas versões sobre a origem desses textos ideográficos. Alguns estudiosos da história da China acreditam que o Nei Jing tenha sido realmente escrito por um grupo de médicos do Período dos Reinos Combatentes, (dinastia Chou orientais, 721-256 Ac. - Horn; Sussman), época associada à conquista do ferro e dos grandes clássicos da cultura chinesa que originaram o Taoismo (a partir do Tao Te King de Lao Tse por volta de 500 a.C.) e Confucionismo (Confúcio, 551 - 479 a.C.). Os sábios da corte teriam feito uma síntese da tradição oral médica chinesa daquela época, naturalmente face aos recursos da escrita artesanal e instabilidade política da época, sofreu diferentes adaptações e versões.

Para Beau, o controle do ensino médico na corte e criação dos primeiros hospitais datam 160 a C. que corresponde à período dos Estados Combatentes (475-221 a.C.) e somente a partir do ano 624, os estudos médicos foram sancionados por exames, sob autoridade do T’ai-yi-chou (瘳 chōu ? (cura) - grande serviço médico) que contava na época com 349 funcionários, segundo ele o mais antigo exemplo conhecido de controle do Estado do ensino da medicina.


[ Frontispício de cópia do manuscrito de Andreas Cleyer's Specimen Medicinae Sinicae, publicado na Alemanha em 1682 - Reproduzido por Needham e Gwwi Djen que observa que o Médico chinês está tomando o pulso do paciente, enquanto o auxiliar está pronto com a caixa de agulhas de acupuntura, moxa e drogas. No primeiro plano vê-se fogão. A imagem ilustra bem a estreita ligação entre pulsologia e acupuntura ]

O médico

O médico cujo ideograma 医生 yī shēng que envolve os significados de ouvir, (conter) instrumento (seta, flecha) em yī 医 e vida, planta crescendo no chão em shēng 生, como vimos, foi uma categoria profissional institucionalmente definida desde a formalização do ensino e prática médica da corte. Contudo, utilizando a conhecida subdivisão das práticas médicas de Kleinman (1980), pode-se distinguir, com o desenvolvimento a própria civilização chinesa, diversas categorias de "médicos" e escolas de medicina, admitindo-se desde o detentor de um saber popular e/ou doméstico, com as variações locais correspondentes à influência das diversas etnias, até o profissional.

Historiadores como Thorwald descrevem os xamãs dotados de poderes secretos que por meio do contato como os deuses afugentavam as doenças enviadas por demônios na era da dinastia Chou (1045–256 a.C.) e comenta que essas práticas se mantiveram por muito mais tempo, pois para a grande massa dos chineses exorcismos e magias constituíam o único recurso que possuíam. Cita com exemplo dessa sobrevivência as anotações de Lun Yü sobre os ensinos de Confúcio destacando um aforismo que diz que: “aquele que não tem persistência jamais se tornará um “médico mago”

Beau, registra que na dinastia dos T’ang (618 — 907) a medicina se dividia em 4 especialidades: os médicos pulsólogos que tratavam da medicina interna e externa, da pediatria e doenças da boca e da garganta; seguidos dos acupuntores; depois dos massagistas que se consagravam também às técnicas respiratórias e da redução de fraturas e os "mestres em sortilégios e tabus" que eram igualmente geomancistas (especialistas em feng shui).


[ Um Médico Itinerante em Tien-Sing. CHINA ILLUSTRATED Thomas Allom (1804-1872) ]

A categoria, reconhecida pela existência de uma escola, cânone definido e uma prática profissional, por sua vez inseria-se em diversos contextos sociais, seja de um médico itinerante (ver China Illustrated in 1845), de um profissional estabelecido em uma região ou de um médico do imperador, onde é possível estabelecer distinções ou sub-categorias. São também conhecidos os relatos de textos chineses que distinguem o “médico superior” dos demais, definindo este como o médico sem doentes, ou seja aquele que identifica as doenças por suas causas e atua antes que aconteçam.

A medicina chinesa inicialmente possuía um caráter humanitário e governamental, pois se desenvolveu entre os sábios e nobres e sacerdotes da corte que por sua posição social possuem deveres para com a população, inclusive do controle de epidemias. Paralelamente se desenvolveu a prática de pagamento com honorários diretos ou salários dos contratados por grandes proprietários e o cuidado com os enfermos e pobres em hospitais sobretudo com o avanço do Budismo nas dinastias Han e T’ang.

Segundo Lyons / Petrucelli em registros da dinastia Chou já está descrita a organização hierárquica dos médicos, eram 9 as especialidades que se ampliaram para 13 no período Mongol. Entre as especialidades não citadas acima por Beau, inclui os “médicos” da febres e da imunização contra varíola; os ginecologistas e as parteiras, (uma médica mulher é citada em documentos da dinastia Han) e, a classe inferior dos cirurgiões.

Os referidos autores identificaram ainda cinco categorias: o médico-chefe (que coletava medicamentos, examinava outros médicos e os nomeava); médicos dietólogos (que receitavam as seis classes de alimentos e bebidas); médicos para enfermidades simples (como as dores de cabeça, resfriados, feridas menores, etc.) e médicos de animais. Nas dinastias Chou (1046 — 771 a.C.) e Tang (618 — 907 d.C.) há relatos de registros formais de seus erros e acertos e no séc. VII d.C. era preciso passar por um exame para ser nomeado médico.

O conhecimento médico era considerado um poder secreto que pertencia a cada prático, passados de pai para filho numa relação mestre – discípulo e controlados por associações de profissionais. A primeira instituição destinada à educação médica que se tem registro aconteceu no séc. XI (Dinastia Song, 960 — 1279). Na dinastia Ming (1368 — 1644) cristalizou-se um sistema educativo que permaneceu com poucas mudanças até o ano de 1800, época da fundação da única escola em Pequim. As instituições de ensino da medicina eram destinado às classes elevadas, mas também eram nomeados professores para instruir estudantes de origem humilde.

Naturalmente que ainda há muito a falar das diversas, possibilidades de definição, especialização e contribuições destes profissionais de saúde chineses ao longo de sua história. Serão relevantes estudos sobre o desenvolvimento da alquimia chinesa, da pulsologia e de outras técnicas de diagnóstico que se somaram paulatinamente.

Serão também esclarecedores da forma que possui essa saber tradicional o estudo de momentos específicos da história da China como o combate aos “feiticeiros” (médico – magos) pelo poder imperial e os diversos períodos com aproximações e afastamentos da alquimia chinesa e mesmo da acupuntura à prática hegemônica, bem como a história dos contatos com as contribuições dos gregos, árabes e da medicina européia ou mais recentemente com as conquistas da saúde pública, onde se inclui a incorporação do saber tradicional à moderna medicina, cosmopolita, estatal, com acesso universal, voltada tanto para atenção primária como para reabilitação e intervenções em nível hospitalar.


[ Imagens de cartaz de propaganda governamental e da prática da acupuntura por médicos de pés descalços ]


Conheça: Famous Chinese Physicians
http://www.itmonline.org/docs/famous.htm (acesso out. 2016


Bibliografia

Beau, Georges. A Medicina Chinesa. RJ, Ed. Interciencia 1982

Haesbaert, Rogério. China, entre o oriente e o occidente. SP, Ática, 1994

Horn, J.S. Medicina para Milhões. RJ, Ed Civilização Brasileira, 1979

Luz, Madel T. Natural, Racional, Social ; Razão Médica e Racionalidade
Científica Moderna, Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1988

Lyons, Albert S.; Pertucelli, Joseph. História da medicina. SP, Manole, 1997

Kleinman, Arthur Concepts and a Model for the comparison of Medical Systems as
Cultural Systems. IN: Currer,C e Stacey,M / Concepts of Health, Illness and Disease. A Comparative Perspective, Leomaington 1986

Mauss, Marcel. As Técnicas do corpo. in: Mauss, M. Sociologia e antropologia. SP, Cosac Naify, 2003

Needham Joseph; GwwiDjen, Lu. Celestial lancets, a history & rationale of acupuncture & moxa. GB, Cabridge Press, 1980

Gernet, Jean. O mundo chinês. (2V). RJ, Lisboa, Cosmos, 1974

Sussman, David J. O que é a acupuntura. SP Record, 1972

Thorwald, Jürgen. Os segredos dos médicos antigos. SP, Melhoramentos, 1990

Wikipédia verbete Huangdi, o Imperador Amarelo c/ contribuições do presente autor.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Dian Kuang - 癫狂

As noções de desvio de comportamento e contato com a realidade, que definem a loucura (psicose), estão presentes em todos os povos. Entre os chineses os conceitos de sábio e "tonto" (愚人, yu ren, fool) podem ser identificados nos provérbios de Confúcio (Analectos) ou textos de Chuang Tse e Lao Tse, a exemplo de "O velho tonto que removeu montanhas" e o "Confúcio e o louco".

Na primeira fábula valoriza-se a persistência e vontade abnegada de um homem que parecia tolo por não desejar recompensas e, sobretudo por entregar-se a uma tarefa que parecia impossível (remover montanhas para encurtar uma estrada), por sinal acaba conseguindo com ajuda divina e de uma geração de seguidores. A segunda história, também recontada por Chuang Tsé cita um episódio vivido por Confúcio. Relativiza o comentário de um louco, que afirma que a sabedoria só faz sentido num mundo onde seja valorizada, de certo modo reafirmado a máxima de Lao Tsé que diz: os homens rudes riem do Tao como se fosse tolice e os homens sábios o reconhecem.

A MTC – Medicina Tradicional Chinesa, também aborda os Distúrbios Mentais como sofrimento e dano emocional. Atribuem, sobretudo uma agressão a função do Shen (coração) geralmente causada pelo fogo, flegma ou vento. Os textos modernos, como o livro dos Quatro Institutos produzido pelo governo revolucionário para divulgar a acupuntura, já utilizam, porém aproximações aos conceitos ocidentais de psicose, depressão, mania e histeria. Conceitos, diga-se de passagem, ainda sem consenso no âmbito da própria psiquiatria / psicologia deste nosso lado poente do hemisfério.

A "Histeria", no referido Livro dos quatro institutos, é descrita como um ataque repentino, sensação de sufocamento, afonia, convulsão, síncope, um típico distúrbio mental provocado pelo fogo, repressão de emoções, distingue-se da mania Kuang que é uma doença do vento com fígado e rins deficientes, ou seja que requer sedação - tonificação de seus respectivos meridianos.

Observe-se que a MTC assinala a relação da Mania, como da depressão (retraimento - desorientação/loucura) num quadro denominado Dian Kuang (癫狂), agitar-se de modo selvagem e permanecer calmo, Dian (癲). Esse termo corresponde à ideogramas associados a confusão, colisão, erro, embotamento e "divinação", ao que vem da divindade oráculo. Observe-se essa mesma expressão de relação com o sagrado estava também presente entre os gregos, igualmente identificada à Epilepsia – Dian Xian (癲癇) ou Yang Dian Feng (羊癫风) que poderia ser traduzida literalmente por "vento - cabra - louco". (Scott)

Na análise dos referidos caracteres feita por Maciocia o ideograma “dian” é composto por “zhen” corresponde ao ideal taoísta de homem gentil; “ye” ou alto da cabeça, através do qual a alma do homem amável sai e “bing” o caractere para doença representando em síntese a doença, onde “perde-se” a alma através da cabeça (perder a cabeça) e Kuang, incoerências de cachorro louco. (Maciocia).


Assim como na psiquiatria moderna (para alguns), supõe-se controlar as depressões, (melancolia) e manias ou mesmo a psicose maníaco depressiva apenas com psicofármacos, há quem acredite que somente o tratamento através com as agulhas da acupuntura, pode-se controlar o(s) processo(s) patológico(s) denominados por eles como “Dian Kuang” que também correspondente à concepção moderna de transtorno bipolar.

O antigo "Ling Shu", apresenta uma série de pontos à ser utilizados por acupuntura e moxabustão, recomenda também a sangria (dispersão) em casos de agitação. Nos comentários de Ming Wong à esse livro há também a recomendação ao entendimento do Dian Kuang no universo mental de outrora. Segundo ele a “loucura” é um termo vago que evoca o “vento” e a concepção chinesa não escapa a essa regra. O termo “feng” (vento - 风) significa loucura (envolvido pelo caractere “bing”. O doente está dominado pelo vento que suscita as perturbações mentais é preciso então extirpar essa energia perversa. (Ming Wong).

Naturalmente considero que são preciosos os critérios de diferenciação das diversas causas e promissores o tratamento através da acupuntura, fitoterapia e moxabustão da medicina chinesa, contudo como ocidental e profissional de saúde mental não é possível ignorar as descrições das alterações de comportamento da psicopatologia e pensar em formas de psicoterapia (cognitivas, comportamentais ou psicanalíticas) ou mesmo nas formas de aconselhamento (prescrição comportamental incluindo os familiares), quando se lê por exemplo no Nan Ching, o clássico das dificuldades:

...na “loucura” a pessoa raramente descansa ou não sente fome. Ela falará de si mesma como ocupando uma posição elevada e exemplar. Ela mostrará sua sabedoria especial e terá um comportamento arrogante e insolente. Ela rirá – e terá prazer em cantar e fazer música – sem razão, andará sem rumo sem descansar...

ou: na “epilepsia” (Dian) os pensamentos da pessoa são tristes. Ela se deita e olha diretamente para frente...

Um bom acupunturista deve não só dominar o processo de diagnóstico para distinguir as diferentes formas de intervenção com agulhas nos pontos apropriados ou demais técnicas na MTC, mas também, com já havíamos dito antes aqui nesse blog, buscar na meditação, estudo de sí e conhecimento filosofia oriental, a atitude reflexiva correta para um aconselhamento para o desenvolvimento progressivo de uma modificação de estilo de vida ou o aprendizado de hábitos saudáveis.

Lhes deixo essa reflexão do Tao Te Ching:











Um verdadeiro homem de bem (o Te / A virtude) não é “consciente” da sua bondade; por isso mesmo é bom (É isso que o Te é)

A virtude que se afasta da humildade (Ao Te humilde não falta o Te) não é a virtude (É o que o Te não é).

Um verdadeiro homem bom não faz nada para ser;
não obstante não deixa nada sem fazer.

Um homem tolo (os mais desprovidos de Te) está sempre fazendo, (sonhando/ planejando); não obstante muito fica sem fazer

Quando um verdadeiro homem amável faz algo,
não deixa nada sem fazer

Quando um homem das duras penas da lei faz algo, deixa muito sem fazer.

Quando um homem das aparências faz algo, exige que lhe respondam.

Portanto quando se perde do Tao, vem a virtude
Depois da perda da virtude, vem a bondade
Depois da perda da bondade, vem a justiça.
Depois da perda da justiça, vem o rito.

O rito é a aparência da fidelidade e da confiança (a casca da fé e lealdade) mas é também a fonte da desordem. (o começo da confusão).

A inteligência previdente (o poder preditivo da ciência) é a flor do Tao, mas é também o começo da estupidez (o princípio do desatino).

Assim o grande homem interessa-se pelo fundo e não pela superfície.

Pelo fruto, mais que pela flor.

Certamente prefere o interior, ao exterior.


XXXXXXXXX Bibliografia XXXXXXXXX

REPÚBLICA POPULAR DA CHINA - MINISTÉRIO DA SAÚDE/ QUATRO INSTITUTOS (Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjig; Academia de Medicina Tradicional Chinesa). Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa. SP, Ed. Ícone, 1995

MACIOCIA, GIOVANNI The Psyche in Chinese Medicine,Treatment of Emotional and Mental Disharmonies with Acupuncture and Chinese Herbs. UK, Hardbound, Elsevier, 2009

MERTON, THOMAS. Via de Chuang Tzu.RJ, Petrópolis: Vozes. 1978

SCOTT, JULIAN. Acupuntura no tratamento da criança. SP, Roca, 1997

XXXXXXX Clássicos XXXXXXXX

CONFÚCIO. Diálogos. Tradução Anne Cheng / Alcione Soares Ferreira. SP, Ibrasa, 1983.

LING-SHU, Base da acupuntura tradicional chinesa. Tradução e comentários de MING WONG. SP, Andrei, 1995

NAN CHING. O clássico das dificuldades. Tradução do chinês e notas de Paul U. Unschuld. SP Roca, 2003

LAO TSE (LAO TZU) Tao Te Ching. Tradução de António Melo. Lisboa, Estampa, 1977 / Tradução (pt) de Waldéa Barcellos a partir da tradução americana. SP, Martins Fontes, 2002 / Edição bilíngue, tradução de Maria Lucia Acaccio. SP, Isis, 2003

Desenhos de:

Vincent Van Gogh (1853-1890) - Sorrow, 1882

Francisco José de Goya y Lucientes (1746-1828), Frick Collection

Ver também:

Acupuntura e psicologia

Dian Kuang - Giovanni Maciocia

Acupuncture for schizophrenia (Cochrane Library)

...neste blog

- Plantas calmantes história e composição

- Cinnabaris 朱砂 (Zhusha)


quinta-feira, 10 de março de 2011

O movimento das cinco estações



Cada dia com sua glória, cada dia com sua dor... bem que esse adágio pode ser chinês e expressar a dinâmica dos cinco movimentos ou elementos: madeira (木), fogo (火), metal (金), ar (上) e água (水) ao longo do dia ou durante as estações do ano.

Na medicina tradicional chinesa, com se lê no “Livro dos Quatro Institutos”, compilado pelo Ministério da Saúde chinês reunindo as principais escolas de acupuntura do país, a teoria dos cinco elementos explica a relação de estímulo recíproco, interação, exagero e neutralização entre eles, a madeira (木),  o fogo (火), o metal (金), o ar (上) e a água (水)  e os meridianos ou canais de energia  (经络 - Jīng Luò). Sua aplicação, segundo essa ciência tradicional, consiste em classificar nestas cinco categorias distintas todos os fenômenos naturais, além dos tecidos, órgãos do corpo humano, respectivos meridianos e as emoções humana. Interpreta-se também a relação entre a fisiologia e a patologia do corpo humano e o ambiente natural com as leis do estímulo recíproco, da interação, do exagero e da neutralização deduzidas da relação entre os citados cinco elementos.

Contudo para um ocidental entender como esta metáfora ou "teoria analógica" é utilizada como guia na prática médica, nada como a antropologia estrutural, a ciência que nos possibilita o devido distanciamento do outro e de si mesmo para permitir o seu entendimento. Somente o entendimento da relação entre o símbolo e a coisa referida, enquanto instrumentos conceituais, nos permite o constante deslocamento de planos de comparação e explicação para entrever o sentido seu lógico. Esse é o método mito-poético proposto por Levi-Strauss que decifra a analogia presente dos mitos. A projeção do eixo paradigmático sobre o sintagmático como num poema que lida com a sonoridade das palavras, sua natureza, grafia e significado, foi como ele descreveu.

Na proposição do citado antropólogo todo mito coloca um problema e o trata mostrando que é análogo a outro problema ou símbolo, tipo fogo, água, vento, etc.. Sua característica é esse jogo de espelhos e reflexos que se remetem mutuamente, sem nunca corresponder um objeto real (exatamente), para ser mais preciso, o objeto tira sua substância das propriedades invariantes que o pensamento mítico consegue extrair, quando coloca em paralelo uma pluralidade de enunciados" (Levi Strauss, 1976). Em nosso caso dos 5 elementos lidamos com uma série de comparações, às vezes apresentadas como matrizes circulares articulando emoções à estações do ano e fatores ambientais. Outras séries de categorias podem ser incluídas tais como sabores, cores e principalmente, pois trata-se de uma tecnologia médica, patologias e a dinâmica da energia nos meridianos ou nos conjuntos de pontos selecionados por essa "regra" de sua mútua inter-relação e efeitos específicos. Nesse proposição consideramos essencial analisar as relações entre:

Emoções: Raiva (agressividade / 怒 nù) ; Alegria (喜 xǐ ); Preocupação (ficar pensativo 想 - si / xiǎng); Tristeza (melancolia / mágoa 悲 bēi); Medo (恐 kǒng) / Apreensão/ ansiedade (忧 yōu).

Estações: Primavera (春 chūn); Verão (夏 xià); Final do verão (Canícula, calor do cão / 天狼星); Outono (秋 qiū) ; Inverno (冬 dōng ).

Fatores ambientais: Vento (风 fēng); Calor (热 rè); Secura (燥 zào); Frio (冷 lěng); Umidade (潮 cháo).

Naturalmente conhecimento acumulado na tradição empírica de milhares de anos modelou os conjuntos de pontos selecionados e sua correlação com alimentos sabores, emoções nas distintas patologias e estações do ano. Algumas correlações das doenças e estações do ano são bem conhecidas por nós ocidentais a exemplo das gripes e meningites no inverno, as depressões cíclicas (sazonais), diarréias e patologias transmitidas por mosquitos no verão, alergias e o pólen das flores primavera, outras são próprias da medicina tradicional chinesa e ainda estão sendo apreendidas.

A grande fonte desse conhecimento na tradição chinesa, como reconhecido por todos, é o Nei Ching, Livro do Imperador Amarelo, acrescentei a estes alguns poetas orientais, porque nada como a poesia para expressar as emoções.

Lê-se no Nei Ching:
“O céu se situa acima, é o acúmulo do Yang luzidio acima; a terra situa-se abaixo é o acúmulo do Yin turvo abaixo. O Yin associa-se à calma, e o Yang se associa ao movimento impetuoso. O yang se associa ao nascimento (como na primavera) e o Yin se associa ao crescimento (como no verão); o Yang se associa ao desenvolvimento (como no outono) e o Yin se associa ao ocultar (como no inverno). O yang tem a função de ativar a energia vital e o Yin tem a função de dar forma corporal a todas as coisas”...

“Na natureza há o lapso das quatro estações e as alterações dos cinco elementos produzem as cinco energias, isto é, frio, calor, secura, umidade e vento, e assim por diante a fim de promover o nascimento, o crescimento, a colheita e o armazenamento de todas as coisas. Já que a natureza e homem se combinam numa só, há como correspondência cinco vísceras para o homem. As cinco vísceras do homem produzem as cinco energias que surgem respectivamente como excesso de alegria, raiva, melancolia, ansiedade e terror.

“A excitação dos humores como alegria excessiva raiva, etc., pode danificar as vísceras, então, fere a energia vital do homem. A súbita alteração de diversos climas, tais como frio, calor, etc. Pode invadir os músculos e a pele ferindo conseqüentemente o físico do homem.

“A raiva violenta faz com que a energia vital flua em contracorrente e force o sangue correr para cima causando estagnação na parte superior e com resultante deixando o Yin ferido. O excesso violento de alegria faz com que a energia vital se infiltre em sentido descendente e como resultado o Yang será ferido.

“Quando o corpo for afetado pelo calor perverso do verão, no verão e a doença não ocorrer imediatamente o calor de verão ficará retido no interior, e quando o corpo for invadido pelo vento perverso no outono, a contenção de frio e calor, um contra o outro, irá causar malária (doença febril) no outono. Quando o corpo ficar afetado pela umidade perversa no outono, está irá subir em contracorrente para atacar o pulmão e irá ocorrer tosse no inverno quando o frio começar a se evadir.”

Muitas vezes o próprio nome da patologia já expressa a correlação entre um elemento interno (emoção) e externo como nas doenças reumáticas conhecidas como doenças do frio-vento, tristeza e umidade ou na sua denominação se acentua o elemento exógeno tipo: a invasão de vento (golpe de vento) causando o acidente vascular cerebral; a “invasão do calor no verão” provocando a insolação; “labaredas de fogo no coração devido a insuficiência da água (rins)” causando a insônia ou distúrbios da ejaculação (se causados por desregramento sexual); a “invasão do pulmão causada por vento-calor exógeno causando paralisias entre outras. O próprio Nei Ching relaciona os principais danos associados à emoção como veremos a seguir nesse exemplo da relação entre a madeira e o elemento ar e seu correspondente metal descrito pelo “Imperador Amarelo”:
“... a emoção do fígado é a raiva, a raiva excessiva pode lesar o fígado, mas a tristeza pode sobrepujar a raiva (a tristeza é a emoção dos pulmões, e o metal (ar) pode dominar a madeira). O vento em excesso irá lesar os tendões, mas secura pode prejudicar o vento (a secura corresponde ao metal (ar) e o metal pode dominar a madeira); o excesso de ingestão de alimento ácido poderá lesar os tendões, mas o picante pode dominar a acidez (o picante pode dominar o metal e o metal pode dominar a madeira).”

E como já referido nada como a bricolagem poética para decifrar e explicar as emoções humanas que não seguem exatamente os típicos comportamentos animais relacionados à sazonalidade. Lutas por hierarquia e disputa de fêmeas entre machos e nascimento e cuidados com as crias entre fêmeas na primavera; cópula e crescimento / socialização de filhotes no verão; engorda e apreensão no outono; migração, hibernação ou morte no inverno. Assim sendo lhes deixo com alguns poetas orientais e seus escritos sobre as estações do ano.

Estações do ano
Matsuó Bashô (1 e 2), Rihaku (Li Po / Li Bai - 3, 4 e 8) e outros poetas

Primavera
No Japão vai de março a maio
cereja em flor
vermelha, vermelha, vermelha
vermelha flor
1
chuva de primavera
a água escorre do teto
pelo ninho de vespas
1
rio ôi
sopre pra longe
nuvens das chuvas de maio
1
adeus primavera
chora o pássaro num canto
lágrimas nos olhos de peixe
2
o rio Mogami
junta as chuvas de maio
ao mar
2
pertinaz esplendor
eleva-se ante a chuva
o templo de luz
2
Kisagata
a beleza dorme na chuva
mimosas úmidas
2


Verão
No Japão vai de junho a agosto
o dia em chamas
joga no mar
o rio mogâmi
1
relva de verão
guarda dos guerreiros
o sonho
2
As borboletas, aos pares,
ficam já amarelas com o Agosto
Sobre a erva no jardim de oeste;
E magoam-me. Envelheço.
Se desceres pelos estreitos do rio Kiang,
Por favor manda-mo dizer com tempo,
Para que eu possa ir ao seu encontro
em Cho-fu-Sa
3

No Japão os tufões são comuns entre o fim do verão e o início do outono.

o mar escurece
a voz das gaivotas
quase branca
1
relampagueia
através das trevas
a garça ecoa
1

Outono
No Japão vai de setembro a novembro
conversa noturna
o vento de outono
e a montanha
2
melancolia
mais lancinante que Suma
praia de outono
2
movam-se túmulos
ouvi meu pranto
vento de outono
2
arde o sol
mas o vento
é outono
2
mas branco que as pedras
da montanha de pedra
o vento de outono
2
vento amotina ondas
pinheiros gotejam
úmida luz da lua
2

Os degraus no orvalho são diamantes branco - brilhantes
Esse orvalho ensopando meus sapatos de pano
caindo feito uma cortina de cristal
faz a lua clara do outono
4

Inverno
No Japão vai de dezembro a fevereiro
aguaceiro de inverno
incapaz de esconder a lua
deixa-a escapar de seu pulso
5
caminho de gelo
piso relâmpagos
luz de minha lanterna
6
a geada queimou tudo
até o cachorro
vaga a esmo
7
montanha de inverno
o menino adotivo do bar
é filho do sol nascente
7

Balada das quatro estações: Inverno
O mensageiro partirá no dia seguinte, disse ela.
Que costurou por toda noite as fardas de guerra
Com seus dedos sentindo o frio da agulha.
Mas como ela pode segurar firme uma tesoura?
Seu trabalho foi feito, e vai ser entregue bem longe dela
E quando ele chegar à cidade onde os guerreiros estão?
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Acredita-se ser fundamental, como referido a tentativa de apreensão do sistema em si (uma abordagem êmica) contrapondo-se à uma descrição étnica (do sistema em relação a outros) e grandiosa é a contribuição da poesia para traduzir, nesse caso os sentimentos e emoções relativos ao clima e estações do ano. Observe-se contudo que as comparações com outros sistemas são importantes, sobretudo na antropologia médica, que pretende revelar as normas culturais ou regras ocultas em termos sociais. Segundo Laplantine esta inter-disciplina ..."não pode dispor-se a abandonar a reflexão sobre a doença aos cuidados das pretensões da filosofia, das ideologias, das religiões, nem sequer do discurso oficial da (bio)medicina." (Laplantine,1991, p.34).

Uma outra possibilidade de interpretação que se elaborou além dessa tentativa de apreender as concepções de emoção, estações do ano e fatores patogênicos/ patologias na percepção oriental (chinesa) acima esboçada, foi a comparação desta concepção chinesa de emoções e patologias com as nossas, ocidentais e antigas concepções, expressas na conceito de energia vital, plenamente utilizado na (bio)medicina ocidental ou medicina cosmopolita até finais do séc. XIX, como podem ser lidos nos aforismos médicos (medievais - renascentistas) e nos antigos provérbios de origem grego-judaica. ver: "Energia vital, vida e saúde em aforismos e antigos provérbios médicos da tradição oriental e ocidental".

Primeira parte: A tradição judaico-semítica: Aforismos antigos, provérbios e conselhos para manutenção da saúde na tradição e medicina semítica.

Bibliografia

CHINA, Gov. Ministério da Saúde / Quatro Institutos – Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjng; Academia de Medicina Tradicional Chinesa. Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa. SP, Ed. Ícone, 1995

LAPLANTINE, François. Antropologia da doença. SP, Martins Fontes, 1991

LEMINSKI, Paulo. Matsuó Bashô. São Paulo, Brasiliense, 1983.

LEVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem São Paulo, Companhia Ed Nacional, 1976

NEI CHING, (Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo). Compilação de Bing Wang (dinastia Tang). SP, Ícone, 2001

VERÇOSA, Carlos. Oku: viajando com Bashô. Salvador, Secretaria de Cultura e Turismo do Governo da Bahia, 1996.

Notas bibliográficas

1 trad. P. Leminsky
2 trad. C. Verçosa
3 Rihaku/ Ezra Pound, Cathay , trad. G. Cunha Lisboa, Relógio d’água, 1995
4 Rihaku / Ezra Pound, Cathay / Costa PPPR
5 Tokoku/ trad. C Verçosa
6 Jugo/ trad. C Verçosa
7 Nenpuku Sato. Trilha forrada de folhas. SP, Acidente, 1999
8 Folk-song-styled-verse / Li Bai
Tang Shi San Bai Shou / 300 Tang Poems - Heng-t'ang-t'ui-Shih, 618-907 Electronic version